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Sem ao menos dar um passo

Sem ao menos dar um passo
passeei pelo jardim de casa
admirando as flores exuberantes,
preenchendo todos os canteiros.
Algumas,subindo inquietas pelos muros...

Sem ao menos dobrar a esquina,
vi todo movimento da avenida
e cheguei até à praça principal.
Ali, pude ouvir dois idosos conversando
sobre suas experiências passadas...
um diálogo tranquilo, testemunhado
pelas árvores maternais.

Sem ao menos tomar o ônibus,
atravessei a cidade e vi
comerciantes atarefados,
mulheres devorando vitrines,
crianças fascinadas
pelos brinquedos eletrônicos,
e por toda parte,
as filas conformadas, esperando...

Sem ao menos, pegar uma estrada,
eu pude ver as rodovias cheias
ao final dos feriados.
Mais ali na frente, tudo parado...
provavelmente um acidente.
E as pessoas preocupadas
imaginando o quanto teriam que fazer
na segunda-feira.

Sem ao menos, pagar pedágio,
prossegui.
Cheguei até a cidade mais próxima,
fui à praça principal.
Vi crianças brincando, e rindo,
ao entardecer,e as mães à janela,
preocupadas,chamando-as para entrar.
Mais adiante quase os mesmos velhinhos
terminando seus relatos melancólicos,
ainda sentados no banco da praça.
Nas ruas, a única diferença,
é que as lojas encerravam o expediente,
e os vigilantes, quase desatentos,
ansiavam pelo momento de fecharem as portas.

Chegava a noite...
E,sem ao menos planejar, já estava de volta.
Percebendo que sem dar um passo sequer,
havia percorrido um mundo quase imutável.

No entanto, esta aparente calma,
longe de sossegar-me alma,
inquietou-me assim como as flores
que escalavam os muros de minha casa...
Porque,covardemente, fugira dos becos sem saída,
onde, insistiam em brincar crianças desnutridas,
e de todas as mil casas esquecidas
onde dormiam velhinhos quase sem lembranças,
e fugi também dos tráficos excusos, em ruas ignoradas...
e de milhares de cenas inexplicáveis,
escondidas atrás dessa paz ocasional.
E assim, sem ao menos imaginar detalhadamente
outras cenas que se delineavam confusamente,
permaneci ali, e sem andar mais um passo,
voltei profundamente triste ao centro de mim mesma.

Setembro/2004
Mareluz
Enviado por Mareluz em 17/09/2006
Código do texto: T242611
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Sobre a autora
Mareluz
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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