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Rato Profundo - Relógio de Pulso - Cálida Canção - Domingo - Domingo Ainda

RATO PROFUNDO

Todo rato é roedor por excelência,
Sua função é cinza, sua natureza é cinza,
Sua visão de mundo é fria e isenta:
Irá sempre, discernir o todo à sua maneira.

Não está envolto em artifícios,
Nele há apenas seu instinto,
Não está na doença, ele é a doença,
Por isso, vive do que apodrece.
Além de tudo, um fantasma,
Vestido de sombra ajuda-o na invisibilidade,
No silêncio imóvel das caveiras,
No espreitar estrito do bandido.

Mas é em certas pessoas
Que o rato secreto se aloja
Dentro de todos crimes.
Uma espessa cortina,
Esconde o rato avulso e pessoal,
Que tem aquelas agulhas na pata
E os dentes cravados no peito.

Esse estado de coisas:
Esconderijo a céu aberto:
Nele, o rato com estóica pequenez,
Amplia sua outra vigília
Com uma lente oculta.

O rato rói ao redor do homem
Porque tem fome sinistra,
O homem é sinistro
Porque o homem é o rato do homem.


RELÓGIO DE PULSO

Eu tenho pressa em meu coração que palpita aceleradamente
Sua rotina diuturna.
Mas dentro do relógio de pulso existe uma figura inefável
Que toca um instrumento repetitivo:
O tique e taque é quase inaudível,
Porém, não penetra a fotografia que tem vôo estático,
O que é pior. Desenha o envelhecimento em meu rosto,
Como numa cilada invisível.
Desta forma, na enxovia, coexiste com o bandido em si mesmo,
Onde a vida é memória.

Eu tenho pressa em meu coração,
O dia começa ao anoitecer,
O tique e taque com sua chama subterrânea, lambe a carne,
Molda uma escultura de areia que se desfigura
Com a ação do tempo atônito.
Eu tenho pressa em meu coração,
Porque num flash, a viagem se acaba,
O dia se acaba, o tempo se acaba,
A vida se acaba como um texto que se finda.




CÁLIDA CANÇÃO

Preciso ouvir a canção que acenda a chama
Do rebrilho longínquo da estrela oculta,
Nesta noite que se decifra à sombra.

Preciso ouvir na canção,
O pássaro que fareja dentro da planta,
Lágrimas orvalhadas do cristal.

Preciso ouvir a cálida canção
Que convida o corpo bailarino
A dançar em arremedo ao vento.

Preciso ouvir a canção que lembre
O palmilhar do anjo inicial
Sobre a ferida alheia que arde em mim.


DOMINGO

Como escapar do domingo?
Como escapar do tédio de domingo?
Como escapar do tédio e do domingo?
Como escapar do tédio?

Domingo é vulto, é vómito,
Sinais da embriagues na ressaca,
Leão na jaula, sol mutante, abstrações.

Domingo tem novena,
A virtual inclinação ao suicídio,
E quando sopra nostalgias
Realça na noite seus sigilos.

Domingo é sal, lágrimas de sal,
Solicitude, vórtices de cilício,
Mansidão no sono dos vampiros.

Domingo esconde o plano do bandido
No projeto interior do sorriso.
Domingo é insípido, como água.

Domingo é tédio, nada mais,
Na verdade, domingo é o medo
Que antecipa a segunda-feira:
A mãe de todo tédio.


DOMINGO AINDA

Como escapar do tédio de domingo?
Quando tardezinha, a preguiça,
Com suas unhas, entra de manso no relógio?

Como escapar do tédio de domingo?
Quando a tentativa de fuga está na fala evasiva,
E o tempo é caracol que se arrasta?

Como escapar do tédio de domingo?
Quando à noitinha o ócio sente-se ameaçado
E o futuro nos aguarda com máscara de vidro?

Como escapar do tédio de domingo?
Qual seria a fórmula desse mistério?
Qual atitude corrupta possível?

Domingo é sempre o mesmo sendo outro
É a mesma gaiola impossível,
Onde aves voejam em espaços restritos.



Delmo Biuford
Enviado por Delmo Biuford em 28/09/2006
Código do texto: T251706
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Sobre o autor
Delmo Biuford
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Delmo Biuford