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CONVERSAS DE FIM DE TARDE



O milharal, ao longe, dança o balé do vento...
Os amigos, três ou quatro ou cinco ou mais,
sentados ao pé da varanda, contam coisas,
causos, como daquele que foi levado pelo disco-voador...
Ao longe, depois da curva da estrada,
tem a casa do Chico Preto, nego doido de pedra,
de fazer esculturas com barro de fazer tijolo,
de entortar aço pra fingir de gente um monte de arame...
Besouros, lagartos, borboletas amareladas,
tudo junto nesse fim de tarde meio quente,
alguém se lembra dos faróis do trem,
vinha vindo e vindo e vindo e entrou
casa adentro do Juca taxista, atravessou
a sala e deu de sair pelo quintal de mangueiras,
a casa larga que só, inda sobrou o quarto
de guardar tranqueiras, pneus, bicicletas,
e ninguém duvidou do quarto em pé...
Um deles se lembra dos homens que mandam lá em Brasilia,
um outro desconversa, essa conversa não presta,
de que o mundo não é de ninguém, é de Deus,
que deu de pôr gente na terra e a terra aguenta,
e o outro se lembra do Machado advogado, instruido,
o mundo dá tantas voltas que passa por ele mesmo,
se Deus dono é que mostre escritura assinada no rodapé,
conversa vai, conversa vem, que bôbo ali é ninguém,
tem um que vai pra dentro e volta de copo cheio,
o alambique do Zé Torneira ainda tá na função,
homem de mil fazeduras, meio inventor e de bom coração,
aquela menina que foi lembrada, menina meio mulher,
veio de manso do mato, nem tinha pé de sapato,
parece que queria doce, queria comer com colher,
de tudo ali foi lembrado, até do homem safado
escondido na danação dentro de uma batina, o tarado
de dia dava perdão e de noite, aos berros, era só pecado,
viúva boa aquela que marido deixou só, nem tenha dó,
sacoleja dentro do preto apertado em volta do morto,
tira um que dava de tudo e logo um safado ali é posto,
conversa boa de nem se acaba, igual pé de jabuticaba,
a sol se pondo vai indo, pros de lá longe vem vindo,
dia, tarde, até logo, de manso partem-se todos sem pressa,
o bom da fala do homem é que se mistura com a vida
e tudo vira conversa.





























Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 30/10/2006
Código do texto: T277732

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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