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Cantares... (24)

 
Eu canto como canta o passarinho,
por condição apenas de cantar.
Com penas, teço as malhas do meu ninho,
com penas, bordo o céu do meu voar...
 
Eu canto a busca mágica da essência
dos gritos orvalhados da manhã,
lavados na verdade da existência,
sangrando na doçura da romã.
 
Eu canto, na dolência da moirama,
saudades de outro tempo que foi meu.
E é quando a dor em pranto se derrama
que eu adivinho em mim um outro eu.
 
Eu canto esta memória tão difusa,
no fado que fadou a minha gente.
Sem chão nem pão, que grito de recusa
me quer, de tão presente,  tão ausente?
 
Eu canto o sol que queima ao meio-dia
e a sede que me greta a boca ardida,
suplício do meu dorso na porfia,
angústia duma jorna tão sofrida!
 
Eu canto e sinto o canto exausto e rouco,
sangrando na garganta e no cansaço,
doendo o desespero num sufoco
e de suor lavando cada passo.
 
Eu canto e me pergunto por que sou,
aqui, nas incertezas do caminho,
a sedução do sonho que ganhou
a condição do livre passarinho.
 
 

20 de Junho de 2005.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal
Do livro em preparação: "O Alentejo não tem sombra..."
José Augusto de Carvalho
Enviado por José Augusto de Carvalho em 27/06/2005
Código do texto: T28336
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
José Augusto de Carvalho
Portugal, 79 anos
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José Augusto de Carvalho