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OS NAVIOS QUE ELE DESENHAVA

   para o José António Gonçalves

            Cissa de Oliveira

        As cartas.
        Era quando chegavam, misturadas, as notícias sobre
        flores que cresciam de uma hora para outra,
        dos entardeceres que se davam quando bem entendiam,
        da impaciência das pessoas que o esperavam
        enquanto ele ainda tentava selar à saliva alguma missiva,
        de como eram as caixas dos serviços de correio na sua cidade,
        dos cinco ou seis livros lidos
        concomitantemente, e de outros, muito interessantes,
        distribuídos pelas mesas, estantes e até ao lado da cama,
        e quase sempre repetia sobre as suas pestanas
        que pouco se encontravam, nas madrugadas.

        E ele desfiava tantas cores, tantas letras, que
        mesmo agora seria impossível não sentir a sua respiração,
        o tato, os pensamentos, e mais se encantar,
        quando lá pelas tantas ele ainda estampava na carta
        uma figura qualquer: um coração alado,
        uma flor num laço, um gato trajando fraldas,
        um castelo, uma praia, uma boca rindo como se risse alto,
        um pássaro no azul claro, coisas que eu fui colecionando
        dentro das cartas e da memória perfumada
        com a maresia das palavras.

        "- A vida é breve. Numa hora dessas eu me vou.
        A verdade, não te esqueças, aparece mais
        no que não é falado".
        Escrevia tudo isso como se fosse a crônica do dia
        para o jornal local, vez por outra deixando claro
        que possuía uma pobre vida:
        era ele o próprio Charles Chaplin, num filme.
        Era então que eu exagerava pedindo fotografias
        onde ele aparecesse com cartolas, bengalas,
        alguma flor na boca, mas bem poderia ser um cachimbo,
        um olhar de mil palavras, um bigode mesquinho,
        um andar característico.

        Comigo eu me ria, séria, entre as metáforas,
        imaginando-o noutros mundos, na leitura de Pessoa,
        Leopardi, Oscar Wilde, Vinícius, Allan Poe, Rimbaud,
        Baudelaire e até Ezra Pound. Fazem bem pra alma.
        Só temia que voltasse a Hermann Hesse, nunca se sabe.
        E se ele resolvesse incorporar O Lobo da Estepe
        e, proposital, partisse para outras esferas
        deixando os leitores a contar
        os navios que ele desenhava nas cartas?

        Mas quase nada dessas coisas eu lhe falava
        que também eu tenho as minhas verdades.
        Em vão. Ele as intuía e intuía mais pois prometia
        sem mesmo que eu lhe pedisse,
        usando letras frescas a tinteiros coloridos:
        não ia se esfumaçar como pássaro no ar,
        não ia.

        Cissa de Oliveira
        Publicado na Revista MARGEM - Câmara Municipal do Funchal - Departamento de Cultura - Ilha da Madeira. Orgaização: António Fournier - Maio 2008.
Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 20/07/2005
Reeditado em 26/06/2008
Código do texto: T36251
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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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