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Manifesto de Reação Contra as Coisas Pérfidas




Não suporto contemplar estático a comunidade
dos indivíduos que foram paulatinamente
vulgarizados pela absurda vassalagem do corpo.
Criaturas emocionalmente minimizadas e deterioradas,
que desabam no conformismo artificializado
da falta de preenchimento e justificam, redundantes,
suas desprezíveis atitudes transitórias
com discursos intelectualmente rarefeitos;
geralmente paródias de alguma tragédia grega.

Na verdade, a enorme maioria destes aldeões
simplesmente não concebe a prática compulsória
da prostituição mental e quiçá também espiritual
a que estão ridiculamente submetidos.


O ciclo vicioso é mantido, fortificado e multiplicado
pela putrefação dos valores sentimentais,
pela incredulidade nos pensamentos sensoriais,
pela contínua desarmonia entre sonho e realidade,
pelo abrupto estado de inércia da psique
que desencadeia os momentos de confusa persona,
e pela ausência da benevolente consciência.

Na última contradança fui surpreendido
por uma disritmia da significância que atribuía
a certas preciosidades que conhecera.
Isso acontece quando se espera a mínima
decência dos bípedes; por isso não é sábio
exigir reflexos de caráter e cumplicidade dos outros Santos.
Agora não posso aplaudir a astúcia de correr
os mesmos riscos que eu corro enquanto apaixonado.

A incompetente satisfação conseguida
pelos solitários na cama alheia, é de tal forma esdrúxula
que os aterroriza com um amargor na língua.
Não se alcança o faiscante brilho nos olhos
com tão pouca entrega de si mesmo(a).
Não se alcança preenchimento total do ser amoroso
sem uma permissiva doação de tempo e espaço.


Apesar de que, quando considerada a impulsividade lasciva,
é possível isolar o fato provocado e sorrir ironicamente;
desde que não haja resultados trágicos,
desde que não se condene ao martírio um coração.
É inadmissível a simples destruição de um sentimento vivo,
pela displicência autoritária das frivolidades.

Os levianos seguem alvoroçados na busca do nada,
e encontram o nada um no outro, então o compartilham.
Sofridos por tanta inconsistência na vida,
exaustos de tanto rodar numa rotação imposta,
perplexos diante do lirismo açucarado
que permanece contido nas versificações,
chega um dia em que os levianos apodrecem e murcham.
Por isso que é tão emergencial uma medida reacionária
de sensibilização dos seres insensíveis.

Aqui eu autorizo a descriminação dos meus erros,
como tentativa de amenizar as dores que provoquei.
Autorizo a completa exposição dos meus medos,
assim eu os dissolvo em saliva e os cuspo.
Autorizo inclusive que rasguem todos os meus textos.
Mas jamais permitirei que destruam minha crença na poesia;
minha fé irrestrita no que determinei como minha verdade.
Não suporto ver o mundo sem grandes esperanças.
Alguns homens e mulheres estão obedecendo
a uma desvalorização de suas próprias verdades,
para adotar uma personagem plastificada,
que representa o ingresso para a sociabilidade
ilusória no país dos corrompidos pela descartabilidade.


Apesar de sair incompreendido pelas estátuas,
não irei, nunca, submeter-me a essa nojera;
os nauseados se engasgam com o próprio vômito,
ou vomitam dentro um do outro quando se beijam,
em beijos ásperos, mofados, fétidos, insípidos...

Eis a modernidade; aprisionando os fracos em seus tentáculos.
As imposições da modernidade, aos que a ela se renderam,
têm formado uma geração de fantoches medíocres,
pedras em bruto estado numa era glacial das paixões.
A modernidade impõe uma redoma de vidro
e o medo de amar absolutamente e sem limites.

Então se moldura a mecanização dos prazeres,
a banalização dos sentimentos essenciais e fundamentais,
a propagação da promiscuidade gratuita
e a fragmentação da importância de ter uma vivência
íntima com outra vida, para somente assim viver vivendo.
No mundo do descompromisso, da superficialidade,
da desesperança, da insensibilidade, da inconstância...
evidencia-se descaradamente o desamor.
Rejeita-se o romantismo, invalida-se o olhar nos olhos,
despreza-se a cumplicidade, reprime-se a paixão,
deturpa-se uma declaração de amor, menospreza-se o poético.
Para a comunidade dos indivíduos vulgarizados
é preciso seguir os padrões, é preciso se auto-afirmar diante
dos outros, é preciso ter cerca de sessenta quilos,
é preciso andar na moda, é preciso contabilizar conquistas,
é preciso se destacar na vitrine, é preciso abrir mão dos sonhos...


Cada realidade é tangencial a uma outra, assim estão dispostas
infinitas possibilidades e oportunidades de construir
vidas constituídas de personificações lapidadas e evoluídas;
de modo que se possa acreditar em si mesmo como um ser humano.
Então sorver a vida com requinte, ternura e avidez;
sorver o amor como um elixir tônico concentrado,
como um fluido energético que circula desmedido pelas veias.
Amor no estado natural, capaz de realizar o inimaginável.

Dar-se-á início ao processo público da revolução das almas,
contra as coisas pérfidas, nulas, insidiosas, frívolas, volúveis, falsas...
Uma revolução particular que tem como vértice o ato perceptivo
que identifica o vazio como conseqüência da rendição precedente;
o vazio provedor de uma insatisfação que chaga a doer.
Pode-se assim, refletir o todo como único; reagir revoltando-se;
absorver os sentimentos difusos; apreciar os detalhes escondidos
sob a pele das vozes; libertar a inspiração e a aspiração; ser sendo.

Todos os dias uma nova poesia inunda uma vida e encarna-se.
Todos os dias o ser amoroso respira oxigênio liricalizado.
Procurem refúgio em um lugar silencioso por alguns minutos
e tentem intuir o que as palavras pretendem propiciar.
Desarmem-se; dispam as armaduras; lavem os olhos, chorem;
entornem no chão o medo do amor e o medo de amar.
A flor do Poeta Maior furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Felipe Melo
Enviado por Felipe Melo em 10/02/2005
Reeditado em 10/02/2005
Código do texto: T3886
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Sobre o autor
Felipe Melo
Recife - Pernambuco - Brasil, 35 anos
38 textos (3517 leituras)
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