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Duas Vozes

Adoro taças de vinho
E vinho... e vinhos viram vírgulas e reticências

Lembro da confusão da revolução, das máquinas...
Vadias... esquálidas... sem alma
por onde andou qualquer calma

Só trouxeram violência
Alguém se esqueceu da inocência
Vemos arrogância, o mundo matando a esperança
Em cada esquina com cara de morte vaga uma criança

Nos colocaram de algemas em uma jaula
Esconderam as chaves ou será que jogaram fora ?
Agora tanto faz...
A única coisa que ainda era capaz de nos enganar
Uma, dez ou mil palavras, já não valem mais

Será que esqueceram que seres humanos
devem ter coração ?...
Fazem tudo em nome de mudança e atualização
E é claro... a que eles querem...
São seres humanos / mas não humanos seres
Não dá pra ter relação...

Seguem como lobos sedentos atrás de ovelhas
Se dizem donos da modernidade
mas no fundo é só sacanagem

Inventores da tal globalização, pedem lealdade
Pura mediocridade / E o povo, pobre povo...
Vai vivendo de mendingagem

Não passam de esclerosados
Teleguiados alienados em busca de mais poder
Esses supostos donos de tudo
Deveriam se preocupar em ter algo mais precioso
Como sentimentos puros
E não vantagens totais, geradas por vontades
disfarçadas atrás de argumentos banais

Mesmo assim não se acham máquinas frias e de ossos
Idiotas... seguem massacrando tudo
Principalmente o que não podem ver
E o povo, a grande maioria a que sofre, acuada
ninguém dá voz parece que tanto faz...

De sofrimento em sofrimento
Vamos ficando a cada dia mais velhos

A dona Maria vai morrer de tédio
Cheia de filhos doentes pra cuidar
não tem dinheiro pro remédio
nem pra se alimentar

Será que isso é sinal dos tempos?...
Se o mundo estiver mesmo acabando
Ninguém precisa mais se matar

E a rua... cheia de jovens roubando
Alguns parecem que realmente estão precisando...

Não tem nem mais construção pro João trabalhar
Pai de família, cheio de filhos
Talvez um dia vai ser obrigado a roubar

E eu vou perguntando, até quando?...
Aonde é que a gente ainda vai chegar

4 da tarde de um dia de sol
Na entrada de uma favela onde tudo é negro
Onde colarinhos brancos, bem brancos não passam
Uma criança no colo de uma mãe
que desesperada chora

Muito movimento, correria... pânico
A mulher vestida de branco agora ensangüentada
Com o filho guardado ao colo
O que será que aconteceu?

Foi o filho da Maria, de mais uma Maria
Que desceu em seu colo pelando de febre
Atrás de auxílio... do Zé da farmácia
Aí aconteceu a desgraça

No meio de um tiroteio a bala...

Balas nunca são perdidas
Essa matou o pobre menino febril
no colo da mãe, mais um João
E eu vou perguntando, até quando?...
Aonde é que a gente ainda vai chegar

Em todos rostos existe choro
Malditas lágrimas, certamente desnecessárias

Na calçada agarrada a seu filho agora jaze Maria
Camisa humilde, branca tratada à aníl, ensangüentada
Não teve palavras, não teve voz, também morreu
Não aguentou seu coração...

Agora só restam as nossas vozes
A minha e a tua que é do povo, que olha...
Orlando Miranda
Enviado por Orlando Miranda em 20/08/2005
Reeditado em 11/02/2006
Código do texto: T43988
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Sobre o autor
Orlando Miranda
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Orlando Miranda