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CUNHAPORÃ - UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE 03

CUNHAPORÃ - UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE 03


Para quem está chegando agora.

CUNHAPORÃ – UMA HISTÓRIA DE AMOR é um poema-romance épico, composto de 271 estrofes e 1495 versos, dedicado a Gonçalves dias. Por sua extensão, ele será publicado em 9 capítulos semanais.

Para que o entendimento do enredo não se perca, procure ler a partir da PARTE 01.

Se Mestre Gonçalves Dias, de onde estiver, puder considerar este trabalho como retribuição a tudo de belo que nos ofertou, fico feliz, porque o simples fato de falar seu idioma e poder ler sua magnífica obra nos originais, já me torna um felizardo.

J.B.Xavier
__________________________

CUNHAPORÃ - Parte III
QUANDO CHEGA O AMOR


E luas à  frente daquela orgia,
Ouviu-se na aldeia, já ao fim do dia
O ruído abafado de um calmo tropel.
E entrou pela taba, pasma, assustada,
Cansado e exausto de tal cavalgada,
Garboso guerreiro e seu belo corcel.
 
O espanto nos olhos tornou evidente
O susto que havia nos índios valentes,
Enquanto o corcel relinchava cansado.
Olhavam o homem que o controlava.
Seguro de si, o animal comandava.
Jamais tinham visto um  índio montado.

“Quem sois? Que quereis?” - disse um, afobado.

“Eu sou Nhuamã , a chuva dos prados.
Procuro abrigo, e por certo o encontrei.”

“O Oyakã  não  está , pois foram  à caça.
Mas ocas não faltam, repousa a carcaça,
Que à  noite, ao fogo, vos acordarei.”

E à noite, então os homens sentaram
Em volta do lume e seus casos contaram.
E após todos terem seus casos contado,
Saiu o cacique de onde sentara.
Rompendo a noite com voz forte e clara,
Chamou o estranho que estava ao seu lado.

“Estranho, quem sois?” - bradou Ygarussú.
“Me dizem que vindes dos prados do sul...”

A taba calou em silêncio, agoniada.

“Abrigo vos peço  até  amanhã .
Sou Chuva dos Prados. Eu sou Nhuamã,
Cansado de luas de extensa jornada...”

“Sois vós Nhuamã , o cacique charrua,
Que monta o Vento nas noites de lua,
Que os prados cultuam, de todos temido?
Sois vós Nhuamã , o leal combatente,
Que a todos ampara, gentil e valente,
Que em guerras ainda jamais foi vencido?”

“Assim o dissestes, Grande Ygarussú !”

“Sois vós de quem falam os cantos do sul
trazendo-me os feitos heróicos e ternos?
E tuas mãos de veludo que afagam a flor,
São as mesmas que tocam os hinos de amor,
E as mesmas capazes de ir aos infernos?”

“Sois vós que hoje vem à minha aldeia,
Que a fama de bravo meu sangue incendeia,
E que afoito já quer partir amanhã ?
Sois vós que aqui vem pedindo-me abrigo?
Sois vós, que, afinal, terei por amigo?”

“Sim, Grande Chefe, eu sou Nhuamã !”

E disse o oyakã, erguendo seus braços:

“Olhai este homem e seus fortes traços,
Do qual sua força não quero aferir.
Olhai para quem a derrota esqueceu,
E que considero agora irmão meu.
Seu canto de guerra queremos ouvir!”

Com gestos seguros, nos ermos da noite,
Com voz trovejante, tal qual um açoite,
Cantou o seu canto o Grande Nhuamã.
Seus olhos, no entanto, do meio da arena,
Pousaram no olhar da suave morena,
Corando as faces de Cunhaporã.


*  *  *


“Eu venho de longe, de terras distantes.
Dos prados dourados,
Dos campos dobrados,
E tenho por taba os espaços gigantes.

Eu venho de longe, das terras da Lua,
Da grama molhada,
Do Sol, da geada,
E trago o orgulho de ser um charrua.

Lamento os mortos, doentes, feridos,
Nas guerras cruentas,
Batalhas sangrentas,
Mas muito me ufano de ter um amigo.

Não busco a morte, o estertor, a ferida,
Nos campos de guerra.
O que em mim se encerra
É  a busca dos risos felizes da vida,

Os arcos trocamos por ávidas danças,
Cantigas e hinos.
E nossos meninos
Crescem felizes, eternas crianças.

Caçamos o potro selvagem nas serras,
Veloz como o vento.
Mas somos a um tempo
Amados na paz e temidos nas guerras.

Nós sempre nos pampas buscamos ficar”
 - Falou Nhuamã -
“O próprio Tupã
Nos deu essa terra de belo luar...

Que vento é  esse que sopra uivante
Ano após ano?
É  o Minuano,
soprando a vida  instante a instante.

Guerreiros valentes lutei e venci
Em nome da paz.
Meu corpo ainda traz
Medonhas lembranças que nunca esqueci.

Ali  uma flecha, aqui uma lança, ali
O branco atirou.
Nhuamã, eis quem sou!
E apesar dos perigos, encontro-me aqui.

Caçando feliz ou lutando nas guerras
Em mil estertores,
Eu busco os amores
De olhos bonitos, em longínquas terras.

Tupã  me guiou por caminhos escuros
Que  Jassy iluminou.
E eis que aqui estou
Em meio à floresta de ares tão puros.

Se amo os espaços, que faço na selva
E nela me embrenho?
Tupis! aqui venho
Deixando as mais lindas coxilhas de relva.

Um dia, num lago, surgiu-me Yara
À luz de Jassy.
E então me senti
Possuído de amor nessa noite tão clara...

‘Tua amada te aguarda’ - Yara dissera.
‘Cavalga p’ro norte.
E cuidado com a Morte
Que em flecha ligeira decerto te espera.’

Quem é minha amada. senhora das águas?
Indaguei ansioso.
‘Não sê curioso,
Que junto com o amor te esperam as mágoas.’

Seu nome ao menos não podes dizer?
Insisti desafiante.
‘Ah! os amantes!
Por que tão mais cedo preferem sofrer?’

E o nome eu ouvi dos lábios serenos
Da deusa do lago.
Um nome que trago
Queimando-me a alma qual doces venenos.


Meu braço me ampara, senhora. Observe.”

E a flecha voou
E no alvo pousou.

‘Na selva teu braço de nada te serve.’

‘A selva é escura’ - falou com voz fria -
‘E em certos locais,
Apesar dos demais,
A treva até  mesmo a Jassy desafia!

Parte, guerreiro, e cuidado com  a súcia
Do grande arvoredo!
Não tema ter medo!
Na selva, guerreiro, o que vale é a astúcia.’

Confie em mim, minha deusa e senhora,
Farei minha sorte
Até  mesmo com a morte!”

‘Cavalga, guerreiro, e parte agora!’

E, pois, eis-me aqui na solene aldeia
Dos bravos Tupis.
Os povos mais vis
Venci ! E eis-me aqui junto à vossa  candeia.

Lutei nas florestas, calquei sob os pés
Guerreiros valentes,
Comedores de gente,
caigangues, xavantes e os vis aimorés.

Feliz, meu regresso trará  mais vitórias
Ao meu amanhã.
Eu sou Nhuamã,
De futuro feliz e passado de glórias!”

*  *  *


Suspensas no ar as palavras ficaram
Ecoando em todos os que as escutaram,
Criando mil sonhos de amor, de perigos.
Guerreiros e velhos - gentil comunhão -
Deitaram seus arcos e flechas no chão:
Mudo sinal de que eram amigos.

E bradou Ygarussú:

“Honras as tabas dos Grandes Tupis!
Se Yara é quem quis
Findar tua procura,
Aqui tu serás,
Aqui viverás
Contente e feliz.
Se, porém, desejares
Os outros lugares
Que conheces tão bem,
apraz-me dizer:
Os Tupis, teus amigos,
Quebrarão as lanças
Dos teus inimigos.
Nada temas.
Nada e ninguém!
E quem, meu amigo,
foi a escolhida?
Por quem tu lutaste
P’rá haver-te aqui?
Que moças desejas
Daquelas adiante?”

Os olhos, num instante,
Do ansioso Nhuamã ,
Pousaram brilhantes,
Sorridentes,
Nos olhos ternos,
No olhar desafiante,
Nos lábios, no corpo,
No belo semblante
Daquela que um dia
Esposa seria
Do Grande Oyakã.
E chispas partiram
Do olhar febril
Da tupi e do charrua,
Brilhando luminosos
Mais claros que a lua.

Ygarussú percebeu
Os olhares tão ternos,
E o terrível instante
O levou aos infernos.

Restava saber
Se era ela a escolhida.
Se assim fosse, o ousado
Pagaria com a vida!

* * *
Próximo capítulo:LÁGRIMAS DE AMOR
Até lá!

Vocabulário:
Nhuamã = Garoa, chuva fina.
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 25/09/2005
Reeditado em 23/10/2005
Código do texto: T53676
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
JB Xavier
São Paulo - São Paulo - Brasil
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JB Xavier

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