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CUNHAPORÃ - UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE 04

CUNHAPORÃ - UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE 04

Para quem está chegando agora.

CUNHAPORÃ – UMA HISTÓRIA DE AMOR é um poema-romance épico, composto de 271 estrofes e 1495 versos, dedicado a Gonçalves dias. Por sua extensão, ele será publicado em 9 capítulos semanais.

Para que o entendimento do enredo não se perca, procure ler a partir da PARTE 01.

Se Mestre Gonçalves Dias, de onde estiver, puder considerar este trabalho como retribuição a tudo de belo que nos ofertou, fico feliz, porque o simples fato de falar seu idioma e poder ler sua magnífica obra nos originais, já me torna um felizardo.

J.B.Xavier
__________________________

CUNHAPORÃ - Parte IV

PRISIONEIRO


“Escolhe!”  - disse o Oyakã .

“Aquela!”  - o charrua disse.
“Conforme Yara predisse!
É ela Cunhaporã ?”

E Ygarussú, qual felino,
De repente, em desatino,
Num salto pôs-se de pé.
“Tu a conheces? de onde?”

“Ah!, meu guerreiro ilustre!
Por quem são as minhas preces
Que só o eco responde?
Então quem é que meu sono
Embala na madrugada?
E quem, em meus abandonos
A mim vem, como uma fada?
Esse rosto afogueado
Garanto, nobre tupi
Nunca jamais ter olhado.
Cunhaporã  nunca vi!

Nunca ao meu sonho dei nome.
Somente aprendi a amar
O fogo que me consome
Nas belas noites de luar.

Mas chegou-me enfim, um dia,
Notícia de tal beleza,
Que herética, desafia
A da própria Natureza!

Viandantes cá do norte
Traziam notícias dela,
E de como viram a morte
Dos que ousaram querê-la.

Sei agora! a heresia
Chama-se Cunhaporã !
Mais linda que a luz do dia,
Mais quente que o sol da manhã.”

“Acaso estás consciente
Que essa moça querida
Há muito tempo, na selva,
É tida como rainha?
Que um dia ela vai ser minha,
Que já esta prometida?

Acaso estás consciente
Que ela é minha propriedade?
Os deuses o querem assim,
E desde sempre a guardaram,
E a mim, então, a entregaram
Desde a mais tenra idade?

Acaso estás consciente
Do destino que te espera
Por tua escolha infeliz?
Tua vida arrancarei!
E teus restos jogarei
P’rá saciarem as feras.”

“O amor, Grande Guerreiro,
Bem como o sangue, é nobre!
Não se encobreUm com o outro!
E sempre que se misturam,
O que resta é a tristeza.

O amor é sempre riqueza.

Eu, que jamais fui vencido,
Nem pelas armas,nas guerras,
Nem nos atos por nobreza,
Nunca havia conhecido
Um guerreiro destemido
Que ao oferecer abrigo
Ameace os de outras terras!
Mas digo-te, Grande Oyakã:
Longe de mim a intenção
De ferir o coração
Do nobre Chefe Tupi,
Da gentil Cunhaporã.
Coragem é  minha consorte.
E é,talvez,maior que a tua!
Não se intimida um charrua
Com ameaças de morte!


Pasma a turba!
Jamais algo tão ousado
fora assim pronunciado
No reduto dos tupis!

Uma lança cruza o ar
com endereço acertado:
O coração do charrua.

Uma esquiva,
Um salto ao lado,
Um agarrar.

Depois a lança a exibir.

Volta ela pelo ar
A atravessar
O corpo do tupi.

Braços e lanças envolveram o insano.
Sangue, estertor, morte,
E o esforço sobre-humano.
Gritos.
Blasfêmias,
Gemidos atrozes
Ecoaram desse coro de mil vozes...

“A súcia do arvoredo!”
 - A voz de Yara sussurrou.

E o bramido da luta,
O serpentear da disputa
Pela taba se espalhou.

A horda anovelava-se
Num furacão de poeira.
Lanças cruzavam o ar,
Flechas loucas a voar
Assassinas e ligeiras.

O charrua rodopiava
E a morte ia espalhando.
Uns caíam desmembrados
Naquele cenário horrendo,
E outros, ao longe,
Lentamente,
Iam morrendo.

Ygarussú , à distância,
Imóvel, observava
O guerreiro que feria
E a morte distribuía,
Mas que, aos poucos,
Cansava.

Finalmente ele caiu,
E a turba caiu-lhe em cima
Sequiosa de vingança.

Cunhaporã , sem esperança,
Viu o início da chacina.

“Poupe-o, Ygarussú !
Eu sou tua prometida!
Não manche com esse crime
A nobre taba tupi.
Salve-o! Poupe-lhe a vida!”

“Terei notado em tua voz
Certo tom de desencanto?
E por quem é esse pranto
Que desce assim, tão veloz? ”

“Poupe-o! Toma-me a mim!
Que guerreiro assim valente
Não pode acabar nos dentes
Das feras desses confins! “

“Alto!” - Bradou o tupi.

Seu grito ecoou no sertão
Parando no ar a mão
Que descia o golpe final.

“Não lhe façam nenhum mal!
Quero-o vivo!”
 
A  mão vacilou na descida.
A recusa em obedecer...

Como o relâmpago
Uma flecha partiu
Do arco do Oyakã ,
E o teimoso tombou,
Já sem vida...

E puseram o charrua amarrado, indefeso
No poste, ao lado de um lume aceso
No centro da taba, de toda a aldeia.
Do corpo seu sangue em torrente escorria,
E a turba gritava em louca histeria
Pisando seu sangue empapado na areia.

Assim o Destino atirou suas malhas.
Ao longe jaziam os heróis da batalha.
Essa foi, para muitos, a guerra final.
Que deus protegia esse índio valente
Que em tão pouco tempo matou tanta gente,
Lutando apenas por seu ideal?

“Não contem os mortos! Não quero saber!
Charrua maldito, tua hás de morrer!
Enterre-os na mata. A todos bendigo!
E tu, Oh, charrua, que a morte trouxeste,
E que em forma de amor disfarçaste a peste,
Tão logo puderes, lutarás comigo!"

"Cada um dos guerreiros tupis que tombaram
A honra da taba, valentes, lavaram,
E irão muito em breve Tupã  encontrar.
Pajé, os ungüentos! curai as  feridas.
Do louco charrua, a mísera vida
Eu quero, em breve, sozinho, tomar."

Seu sangue na selva eu espalharei
E ao longe, nos pampas, eu lá levarei
Notícias da morte do ‘Grande Nhuamã ‘.
Todos na selva vão vê-lo morrer.
Troféu de seu crânio eu hei de fazer
P’rá honrar nossos mortos e Cunhaporã.”

* * *

Próximo capítulo
LÁGRIMAS DE AMOR

Até lá!

JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 02/10/2005
Reeditado em 23/10/2005
Código do texto: T55660
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
JB Xavier
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JB Xavier

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