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MATER de matriz velada

                     [ Mater ]


Eu não fui sempre assim
mas a minha mãe
sempre foi a noite...
sem leito,... sem sossego.
A minha mãe sempre foi
a que me conta histórias
que nem sempre me custam ouvir
nem sempre me adormecem.
Ainda assim são quase silêncios
mas tão mansos que não ferem
nem interferem com nada.
A minha mãe
é o único medo do escuro
que já não me massacra
e, ao invés, revolve-se em mim
como o primeiro carinho
quiçá... um carinho cego.

A pesar na minha alma
de rapazinho assombrado,
as luzes plácidas da noite;
e eu não me canso
de lhe inventar
afectos e encantos maternos.
Ai mãe, madre-minha-pérola,
meu nácar e matriz,
minha noite velada
e mártir da euforia
de todas as minhas mágoas;
Ai, mãe como eu quero...
mesmo, mesmo, tanto, tanto,
encomendar-te um sonho.
E que seja um sonho cego...

Já nem tudo me chega
desta noite ténuescente
talvez porque a lucidez
se me obstine, caprichosa,
pela miopia a dentro;
talvez que a mira lucífuga
de um certo entendimento
denuncie o meu querer
que na alma se emprenha.
E só essa noite maternal
se pode ter por testemunha
de uma tal consciência;
que da sua penumbra
emana para mim o presságio
de eu não claudicar
no intento incendiário
de me oferecer, vivo. Sim!,
reafirmar-me pelo parto
do possível em excelência,
do desiderato de sublimação
a brotar do meu fogo.
Porventura um fogo cego...

É por aqui que se burila
um destino remanescente
para os meus passos.
A tornar-se insana a ousadia
de reservar para mim
o recôndito peito da noite.
Se não estou em erro,
levo para qualquer eternidade
o ventre prenhe de um credo.
Ainda que seja credo... cego.


______________________LuMe
Luis Melo (www.lumelo.com)
Luis Melo
Enviado por Luis Melo em 12/10/2005
Código do texto: T59034
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Sobre o autor
Luis Melo
Portugal, 59 anos
64 textos (2257 leituras)
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Luis Melo