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Candelabro

Candelabro
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A vida me reservou certos punhais.
Selecionou os bem afiados.
A carne dói, e muito. A alma dói junto.
Mas a frieza do metal trouxe uma tal clareza.
E uma lucidez tamanha que me causa arrepios .
Por isso algumas vezes evito tanta certeza.
Me escondo num sonho lindo.
Faço um grande esforço, e novamente acredito.

Sinto momentâneo alívio, uma aragem de paz.
O abrigo doce - e maldito - da ilusão.
Aquela que nos mente.
Que envolte e engana, uma serpente.
Que esconde aquilo que resulta em Não.
Mas traz de volta um certo sorriso.
Uma leve vertigem, suave esperança
Brilha no olho uma luz criança, que dança.
Luz cristalina que tanto preciso.

Mas qualquer fuga é enganosa
No devaneio, a fera ardilosa.
E a realidade me sacode violenta.
Com sua verdade furiosa e venal.
Diz que é ela quem me sustenta.
Lembrando que a dor por vir é intensa.
Que pode roubar um pouco mais de vida.
E me apresenta, impiedosa, um novo punhal ...

Diz que este é fruto de outra revelação.
Que vou florescer com isso, um girassol
Gerar sementes e bosques em segredo.
Que cálidas luzes vão beijar-me o medo.
Que vai dotar-me de infinita visão
E que por minha boca, que retém o grito,
penetrarão novos raios de um inequívoco Sol .

Observo agora a arma branca.
O artefato poderoso, longilíneo
Ao seu desenho inusitado meu olhar estanca
Assombrado com punhal de prata e aço
- seu formato lembra um candelabro -
Iluminando assustadoras tenazes
Com seu brilho cruel de calor escasso
Que reflete agora um terror sanguíneo.
nas lâminas absurdas e vorazes.

O punhal tem um cabo único, torneado .
Como um brilhante meticulosamente lapidado.
Uma jóia esculpida para o sacrifício.
Chega a ser bela a escultura mortal.
Tem a sede da morte, seu único vício ...
É o que vou perceber adiante e agora
Nesse intimo contato com a pele.
No mais completo intercurso carnal.

O que não vejo, e que me rasgam fundo ,
são as cínicas lanças . Assassinas.
Lâminas multi-vitelinas .
Gêmeas de muitas diversidades.
Forjadas em ódio e ironias ferinas
São velozes. São covardes. E são cinco...

Perfuram rápido, e de imediato, ouço vozes.
Talvez dos anjos que me anestesiam.
Me sustentam forte, me acariciam.
Fazendo que sobreviva aos profundos cortes.
Para assistir - quem sabe - outros juízos finais.
Os mesmos anjos que me ampararam em outras mortes.
E compuseram à minha estrutura os antigos punhais.

Esse recente ainda brilha triunfante
Mas vai adquirindo o tom da minha pele ensolarada.
A prata e o aço um dia serão dourados.
Ninguém perceberá. Tudo então ficará camuflado.
As lâminas internas se integrarão ao meu corpo
numa simbiose bio-compatível, um enlace amoroso.
Assim diluídas, formarão imensos rios.
Nas minhas artérias circularão sangue e metal.

E meus olhos - antes doces - se tornarão frios.
Mais frios que qualquer punhal...

Claudia Gadini
27/08/05
Claudia Gadini
Enviado por Claudia Gadini em 24/10/2005
Código do texto: T63002

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Sobre a autora
Claudia Gadini
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Claudia Gadini