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NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Ontem achei um brinco. De pérolas.
Falta-me a orelha, o corpo que sustenta a orelha, o ar que esse corpo respira, o mundo em que mora, que universo habita.
Achei uma carteira com algumas notas dentro. Falsas.
Falta-me o bolso de onde caiu a carteira, o corpo que veste a calça,
os becos por onde esse corpo caminha, que gueto frequenta.
Achei uma carta de amor. Verdadeiro.
Falta-me a mão que escreveu a carta, o pulso dessa mão, o braço inteiro, o ombro que sustenta o braço, o corpo todo que sentiu cada uma dessas palavras, caligrafia perfeita de um amor sincero.
Achei uma bíblia. Gasta.
Falta-me a crença que a pessoa carregava. A que Deus se reportava quando sua inabalável certeza ia por água abaixo. O templo onde se ajoelha e entrega tudo o que tem a quem tem a coragem de se apossar do maior bem de um homem, a sua fé.
Achei uma arma. Vazia.
Falta-me saber em quais direções suas balas voaram, que destino deu ao seu ódio, a quem feriu com vontade inumana, como se tornou um criador de cortejos, explicar-lhe que não há bala perdida se ela encontra um corpo.
Achei um poema. Em branco.
Falta-me a tinta de todos os dias perdido que encontrei, a dança de todos os sonhos que ali vão se realizar, um par de olhos para lê-lo, somente isso e nada mais.
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 11/09/2007
Código do texto: T647840

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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