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Um velho e sua Muleta


Num dia qualquer, delimitado no tempo e no espaço
Dia em que a vertigem e a ferrugem é a realidade própria das coisas
E as coisas somos todos nós: homem, relógio e cidade
Onde engrenagem e parafusos se confundem –
corria eu desesperado a engolir asfaltos e publicidade
para o meu trabalho.

Chegaria atrasado?
Ah, Shakespeare se riria da minha aflição!

Stress? Horácio não imagina o que seja.
“Carpe Diam!” Ele me aconselharia... .
Mas o meu dia já não era meu - retrucaria - o meu dia era de Outro.

Como colher o dia que já não me pertencia?

Assim corria eu desesperado a vomitar asfaltos e publicidade.
No instante eram tudo e todos a se perderem na espiral da eternidade
- trânsito entre rotinas,
        farmácia entre prostitutas,
        pedestres entre camelôs,
        meio-dia entre suores,
        angústia entre paletós,
        tédio entre sapatos,
        pressa entre semáforos,
        mendigo entre manchetes,
        antenas entre passarinhos,
        flores entre cigarros
        solidão entre apartamentos -

Quando dei de cara com um velhinho e sua muleta.

O mundo inteiro, Alemanha, Iraque, China, reconstruiu-se me na imagem daquele senhor e sua muleta.

Sim. Meus olhos enferrujados nunca se esqueceram daquela pálida figura.
Daquele senhor demasiadamente curvo, magro, a se equilibrar heroicamente em sua muleta, enquanto o mundo na vertigem do momento desmoronava.

A questão crucial reconstruiu-se me numa pergunta:
        Poderiam, sozinhos, velho e muleta,
                                          cruzar a imensa rua?

                    Poderiam chegar no outro lado, ilesos?

No instante era só um velho e sua muleta desamparados
no louco turbilhão da cidade.

Que poderia eu a passos largos fazer? Cessar a marcha?
Submeter meu (alheio) horário?
Romper a engrenagem? Cuspir no capital?
Colher o meu dia?

Por que este ímpeto de heroísmo me saltara para salvar aquele velhinho e sua muleta assim tão de repente?

Se mais cedo ou mais tarde ele morreria?
Sua muleta morreria, eu mesmo morreria,
os semáforos,
os pedestres,
                         as prostitutas,
                          os mendigos,
                          os pássaros,
                          meu patrão,
  e tudo que comungamos:
angústia, tédio e medo
morreriam,
como se nada tivesse acontecido
como se tudo não passasse de um mero suspiro na madrugada?

E o que farei pois? Farei da vida um vale de lágrimas?
O que importa é a salvação divina,
o céu, o paraíso, as virgens celestiais?

Ou meu heroísmo lançará suas ambições para além do velhinho e sua muleta – por um tijolo acima das coisas mundanas? Ao céu?

Arre! Que o céu vá para o inferno!

O que eu queria era tomá-lo no braço
Estender suas mãos no meu ombro
Fazê-lo me seu companheiro de ao menos um minuto
E quem saiba, porque não, sua segunda muleta?

Não obstante, passei-lhe passageiro, despercebido na correria da cidade.
Alex Canuto de Melo
Enviado por Alex Canuto de Melo em 13/10/2007
Reeditado em 14/10/2007
Código do texto: T692702
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Sobre o autor
Alex Canuto de Melo
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Alex Canuto de Melo