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Lamento de um Vampiro

Ah! Demônio! Demônio, nascido do inferno!
Dos filhos de Satanás, tu és o mais belo!
Demônio! Louro como o sol do médio dia,
Louro como a amaldiçoada estrela da manhã,
Louro como Lúcifer, arremessado desde os céus!

Tentação! Cujos cabelos guardam o ouro maldito
Dos ídolos pagãos, Dagom, Baal, Astarote!
Demônio! De olhos azuis como a Inocência,
Como o mar em calma antes da tempestade
À menor onda revelando o cadáver tragado!

Filho do inferno! Teus lábios são como a dionéia
Fresca e doce, repassada de cristalino veneno!
Arrancaste dos pêssegos o veludo inefável
Com que escondes os teus pálidos ossos!
Tu és, dentre as pragas do Abismo, a mais bela!

Monstro! Como pudeste, sob as trevas de Uriel,
Manchar com o sangue amaldiçoado de Caim
A alvura imaculada do templo do Deus Eterno?
Senhor! Este templo é este servo perdido,
Senhor! Tende piedade!

Miséria! Miséria! Brada o coro dos proscritos,
Miséria! Anátema! É o abater da santa ira divina!
Treme o Tártaro em meio à multidão de gemidos,
Do Cocito ao Letes, e até Caronte em sua barca,
Gemem e choram ante o furor inominável do Eterno!

Choram Radamanto, Minos e Éaco, negros juízes,
Chora o horrível Cérbero, choram os condenados;
Tu, entretanto, filho dileto de Satã, deitas aos lábios
O mais suave dos sorrisos, e perfumas com blasfêmias
Os portais do inferno, e os abres com tuas mãos!

Príncipe das trevas! Maldita seja tua beleza de anjo!
Com teus lábios de rosa ofertas o imortal Beijo,
Negro dom de maldição, selo de condenação!
Tanges em tua harpa mil melodias demoníacas,
Sublime arauto do Abismo, filho do inferno!

O sangue de tuas vítimas sorri em tuas presas!
A alma dos inocentes pranteia em tuas belas íris!
Os nomes de teus manjares são os diademas em tua testa!
Formoso demônio, malditos sejam teus encantos!
Malditos sejam os teus lábios, cálices de êxtase!

Em teus braços de veludo, oferta de prazeres diabólicos,
Visitei o Hades, mascarado em meigo Paraíso;
Envolveste-me em tua alva carne, toda lascívia e gozo,
E, afogando em esquecimento qualquer singeleza e castidade,
Fizeste-me afogar-me contigo em rubro e horrendo sangue!

Louro e belo demônio, malditos sejam tu e tua descendência!
Maldito sejas, por tornares imortal minha carne mortal!
Maldito sejas, por tornares mortal minha alma imortal!
Maldito seja, por desejar-te, maldito seja, por anelar-te,
Maldito seja! Mil vezes maldito! Miserável!

Se meus cabelos carregam a noite, os teus são o dia jamais visto;
Se meus olhos têm a prata da lua, os teus têm os azuis do oceano;
Se a alvura da neve é a minha pele, a tua é o mármore dourado;
Se sou gótico serafim, és querubim da Renascença.
Se meu apodo é beleza, o teu é perfeição.

Anda! Arrasta-me! Irei sem demora ao teu apelo!
Lança-me aos braços de tuas bacantes, jovens Liliths!
Devora-me em teus macios leitos de cadáveres!
Traga-me a flor da virgindade, bebe-me o leite da inocência!
Possui-me! Não é este, dentre teus desejos, o maior?

Inominável desgraça! És o meu amor, doce filho do inferno!
Mas, se ousar amar-te mais que a Deus, ou à Virgem,
Cravarei em teu peito a Cruz, até ver-te expirar em agonia,
E entregar-me-ei inerme ao gentil nascer do dia,
Para acompanhar-te nas eternas penas, arrependido!


Cynthia França
Enviado por Cynthia França em 21/10/2007
Código do texto: T703147
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Sobre a autora
Cynthia França
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
7 textos (185 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/10/17 10:17)
Cynthia França