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dorândia




são raros os dias
em que podemos acordar
com o sol da verdade
a nos desproteger deliciosamente
quase cegando
pois verdade machuca a retina

preferem que estejamos adormecidos
em nossas salas sociais
em nossa celas urbanas de sono controlado

poeira na estrada
capim à beira
esconderijo

verdade é assim:
é pra ficar escondida

e pior
aproveitam-se da relatividade desta
(incômoda para muitos, e deleite para almas poéticas)
para abastecer a máquina do sono
o pernicioso mecanismo
instituído por essa cultura
nossa mãe
essa puta, mãe de todos nós
os filhos da puta

flores
olores e sabores suaves de sexo
eletricidade furiosa e animal –
no que os animais têm de melhor
nudez e abraços horizontais
de aconchego psicológico
de convergência
de encaixe

ouro
fios d’ouro de amor eterno
realidade
descoberta científica
na terra dos sapos

em dorândia
os sapos se transformam em príncipes
só lá
apenas lá naquele lugar
explorado por cientistas
onde cama vira mesa de laboratório
onde as pupilas dos pesquisadores dilatam
onde seus corpos tremem inteiros

há mais coisas do que sapos,
príncipes e princesas naquele lugar misterioso:
lá é o palco do fim do mundo

e o mundo tomou soníferos demais
psicotrópicos
o mundo acordado não cabe lá
e dorândia acordada
não cabe no mundo.

Luciano Fortunato
Enviado por Luciano Fortunato em 14/11/2007
Código do texto: T736838
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Sobre o autor
Luciano Fortunato
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 47 anos
561 textos (79841 leituras)
20 áudios (426 audições)
15 e-livros (3280 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 03:35)
Luciano Fortunato