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Amor

Para ti
Sou um homem rude e amargo, como uma romã estragada,
Porque sentes a polpa dessa romã estragada,
quase que negra e sem brilho, na tua boca.
Acaso não arruíno teu apetite à mesa,
quando mostro o verme que dança na fruta?
E tudo porque, meu amor,
não sou a vaca subjugada pelo campo que lhe dá pasto,
E não acho o campo bom.
E assim, eu o sei, traio meu espírito e se não o traísse seria
Por ele consumido, porque ele queima com um fogo forte e feroz e faminto.
Ah, minha irmã! Pensas que para fazer um homem basta um caralho.
Tenho-te nua na cama, e é verdade que isso me parece belo e bom.
E ando sempre a escolher o que é belo e bom antes do que é útil nessa vida.
Caso fosse o contrário, porque me deitaria contigo,
fugindo de uma loucura para debaixo das saias de outra?
E me dizes ainda: “tens de ir a uma igreja.”.
Mas a religião dos homens daqui me falta, e não a procuro.
Como me ajoelharia diante de um deus cujo rosto cansado é um cadáver aberto?
Ajoelhar-me-ia antes às patas de um asno sarnento, porque é vivo,
e faria dele meu deus, e edificaria um altar a seu sacrifício,
e sacrificaria moitas e mais moitas
para que para sempre fosse eu um abençoado.
Dentro de tal igreja não cabe sequer meu coração,
porque tal igreja é o arauto dos vermes.
“Eis-me aqui”, e isso bastaria para que minha vida se
rompesse como o escapulário nas costas das velhas.
Nunca hei de ter um mestre.
Os mestres conduzem sempre a lugar nenhum,
porque todas as vidas conduzem a lugar nenhum.
E esse mestre me seria um fardo porque teria eu
que carrega-lo nas costas doridas, já que sou o mais forte
e eu não ter discípulo algum o prova.
E mesmo sendo o mais forte, ao fim não valho grande coisa,
porque ninguém e nada, ao fim, vale grande coisa.
Nem eu, nem tu, nem nosso sangue que algum dia se fará vivo no filho.
Eu sou um estranho, minha irmã, a tudo o que me cerca.
Sou mais antigo do que todos os deuses juntos,
Sou mais belo do que o busto de um cavalo,
Sou mais incandescente do que a cona molhada de Vênus,
Tenho os dentes do gênio mastigando meu pescoço,
E tu, que me tens por inteiro
Achas tudo isso pouco, quase nada.
Corso
Enviado por Corso em 17/11/2007
Código do texto: T740421

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Sobre o autor
Corso
Balneário Camboriú - Santa Catarina - Brasil, 34 anos
19 textos (288 leituras)
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