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Antonio Carlos

Amanheceu
parece brincadeira
mas tudo está de cabeça para baixo
a cara inchada é tão normal
que ninguém
mais disfarça
aquele olhar fundo vítrico
dá o realce patológico de toda manhã
o Sol escapa vadio nas nuvens de fumaça
a rua acorda com aquelas caras medíocres
caras de bundas
que transitam sobre a sola da calçada
o despreguiçar é tão chato que dói em algumas costas
e tem aquele
que ainda está tentando trepar no seu travesseiro
outros ainda estão com o mundo cainda na cabeça
tem aquele que acabou de acordar
mas que maldiz
o cabelo está parecendo uma vassoura desarrumada
um bom retrato da vida
sonolenta
ou calma
com todos os traumas e neuras de qualquer cotidiano
catorze para qualquer hora
o barquinho toca numa rádio
aquela batida de coração encharcado
deslizando na água do chuveiro
na privada um atônito vômito de ontem
sem descarga
sem alça
sem nada
todas as peças esquecidas numa derrubada cadeira
e o grito agudo daquela sirene lembra
arre! que frase cara
grande mesmo como o puta coice que você tomou no estômago
nem se lembra do que tomou
pilhas e pilhas de cinzas e mais cinzas
impregnando no ar o cheiro de tanta fumaça
abre a janela
tome Sol na cara
amanheceu mesmo
a brincadeira é trazer o mundo de volta.

Peixão89
Peixão
Enviado por Peixão em 24/03/2005
Código do texto: T7613
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Peixão
Santo André - São Paulo - Brasil, 56 anos
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