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Inútil é pensar, porque eu existo sem isso (culto a Alberto Caeiro)

Dizem-me que o Homem que não pensa
É inútil.
E que pensar é existir.
E que, se o Homem pensa, existe.
E que, por si só o pensar, prova a todos
a sua Existência.
Então eu existo porque penso!

Mas as árvores do campo e as pedras da rua
e o eléctrico da cidade no seu chiar enervante
prolongado e constante,
mesmo não pensando, existem!
Logo, não é preciso pensar para se provar
a existência de algo.
Abaixo a filosofia que apregoa que só
o ser pensante existe.

O musgo da parede velha a cair
de madura e cansada
e o bolor que já tem séculos de vida
mesmo antes do seu aproveitamento medicinal
e que nunca pensou ser experiência
de laboratório e salvação de vidas,
também existe sem pensar.

O que existe, afinal,
é aquilo que vejo, sinto e apalpo
nos seus contornos – diariamente conheço! –
e não algo imaterial que me dizem que existe
mesmo sem o ver e sentir, só porque o penso.

Que a alma do Homem existe e o seu Criador
também… – dizem-me.
Porque acreditar que tudo o que há
para além da física, existe?
E porque necessito eu de provar
a minha existência
partindo da existência dum ser superior
que – dizem-me deu origem?
Ou porque, provando a minha existência
partindo do facto de que SOU
um ser pensante e, como tal, existo,
sou obrigado a aceitar a existência do tal Deus
que apregoam?

Sei que existo.
E algo em mim – seja alma ou não –
é fluxo e fluir dessa existência.

Mas se as pedras existem e as árvores e as águas
revoltadas do mar existem
mesmo não tendo alma nenhuma,
porque preciso eu de pensar para poder existir?
E porque afirmar que, se eu existo porque penso,
é porque um ente superior me deu a faculdade
de pensar para chegar à Sua e à minha existência?

Porquê esta metafísica toda para pensar
coisa nenhuma?!
Vejo metafísica suficiente nas pedras da rua
que piso
e nas águas do mar que me banham o corpo
mesmo sem pensar,
que não precisam de metafísica nenhuma
para existir. Porque tudo o que vejo
e apalpo e cheiro e sinto, existe sem pensar!

E tudo o mais, para além disto,
ainda que me chamem doido varrido
afigura-se-me ser igual a coisa nenhuma.

____Publicado no site USINA DAS PALAVRAS
____Inserto no inédito "O OUTRO LADO... de mim"
Alvaro Giesta
Enviado por Alvaro Giesta em 06/12/2007
Reeditado em 04/02/2015
Código do texto: T767875
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alvaro Giesta
Vale De Amoreira - Setúbal - Portugal, 67 anos
84 textos (2119 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 05:43)
Alvaro Giesta