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MADRUGADA

MADRUGADA

Nesta noite devasta a sentir o arrepio do vento,
e os temores da minha loucura contemplo esta alma nefasta.
O grito de paz pela sepultura,
procuro o Palácio do Éden,
mas, para as cousas que me sucedem,
vejo que não mais encontrarei o reino.
O reino de uma semente interior
mui fraca, perdida na penumbra vasta,
oh!... madrugada eterna, manto que cobre as complexidades.
Figura do conflito entre o dia e as trevas.

Tanto me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador...

Nesta madrugada contemplo caminhos,
há duas trilhas para continuar.
Nesta madrugada vejo o templo da vida
tempestuoso como o destino do mar.
Tudo são trevas em nosso destino,
misturadas a uma luz fraca e insegura,
formando a madrugada dos peregrinos,
formando um amálgama entre partes claras e escuras.
A pouca luz nos diz que viver é como um lírio, para ser feliz
tem que se contentar, apenas, com a existência.
Diz que viver é como ser um lírio no vale verde
e ano azul da adolescência.
Diz que de nada vale o suor, apenas ele desmancha
a paz e a inocência...

Nesta noite um brilho seco,
as trevas agora são elas que falam
de amarguras e do fim.
Fico com sentimento de estar sem passos,
quero ser chefe de mim...

Tento me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador...

Nesta madrugada de emoção,
o brilhar dos olhos ilumina pedras;
meus passos são ruínas de um chão.
Quantos pesos de trevas em uma estrela
que tem um brilho perseverante...
Solitários nós não sabemos o que fazer.
Ou seguimos aquele lume e desaparecemos no além
ou caímos na triste orgia de toda a treva.
Este problema de luz e treva,
de madrugada, é a força em nós,
pois a vida está em nossas mãos.
Os meus abrolhos sempre me ferem,
e já não tenho sangue para mais morrer.
Esta madrugada um dia terá que clarear, enfim.
Terá que vir o bem e a alegria,
antes que cheguem as trevas e o nosso fim...

Tento me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador...

As trevas estão fartas de egoísmos
e eu não aprendo a viver...
Meu peito repleto de cataclismos,
e o verde evaporando-se em cada ser.
Vejo, na madrugada, o brilho do orvalho
e os sonhos próximos de realização,
porque ainda existe um horizonte que é lindo,
e um humano ciente de que luzes vencerão
pela escada do mar da vida
e pelos alpes da terra prometida...
Devemos ser o natural de nós,
devemos ter a certeza de não estarmos sós.
Oh! Extinto humano nesta madrugada,
penso que não rolaremos mortos nas trevas, no nada.
Esta madrugada possui uma luz ainda e, há tempo,
muito tempo, para cultivá-la.

Tento me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador...

O vento da noite leva
para um caminho que se alimenta da guerra,
construindo uma natureza, na treva,
de monstros, pântanos, miséria na terra...
Mas o ânimo de repente amanhece
e a força vem como ciclone mais leve,
os músculos de bem crescem serenos
e o grito vem forte e tal como seremos.
E a madrugada se envolverá...
E um dia de luz,
esquecendo a treva, o peso lancinante da cruz.

Oh... madrugada estranha!
que guarda o tesouro da luz em sua obscuridade.
O pensamento desenvolve-se em seu lençol.
E eu sei que o povo um dia irá tocar no girassol.
Oh... madrugada dos sonos! seu conflito diz
que ainda não estou em abandono.

Tento me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador.

O ritmo de nossa morte é de exaustão,
imenso está o ritmo deste mundo.
Quem restará da guerra louca que farão?
Talvez haja alguma felicidade na madrugada,
mas esta luz terá que ser forte, repleta de doçura.
Este riso terá que ser alimento para as floradas;
este riso terá que estar próximo de toda verdura.
O ritmo de nossa morte é uma arruaça,
homens sorriem pelo veneno, sem a graça:
marginais, gritos, injustiças em massa...

É hora de sentirmos o calor de uma morena,
o calor do beijo, do nosso orvalho,
da grande calmaria.
É... talvez ainda haja tempo de um canto,
de um perfume em meio de restos que aparentam agonia.
Oh... madrugada! Sono entre a paz e a guerra.
Oh... coração de noite e de luz!
É a neblina de tristeza e de felicidade.
Avante! Humano justo!
Resta um leito e uma luz a todo custo...

Tento me animar para a vida
que nunca soube o que é o amor.
Minhas preces buscam um pouco de paz,
simples direito de um sonhador...



FERNANDO MEDEIROS
 verão de 2005

FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 22/12/2005
Código do texto: T89247

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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