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OS SOLOS E A FOME

REI DOS SOLOS

As mãos estão a procurar
o mais desejado deste...
o mais desejado que o desejo.
As mãos procuram a amargura
de não ter o desejado instrumento,
pois, como dizem, ele compra o conforto.
No solo do mundo, todos andam
atenciosos aos movimentos do desejado,
atenções neuróticas e loucas.
Intenções de matar se for necessário!
E o solo do mundo... o desejado habita
suas misérias e suas destruições; ele cita
por meio de onde ele teve origem: o homem...
E vai sua gula a destruir campos,
a inocência de tudo no que se cabe de humano.
Vai caminhando entre maliciosos...
até comprar os objetivos dos estudiosos,
até formar antros de crimes e ociosos.
Os solos do mundo... o desejado possui,
leva à ignorância a sabedoria de um povo,
aproveita-se da ingenuidade do homem novo.
O desejado glorifica o veneno de suas víboras,
enterra os ossos daqueles que não o segue.
Seu poder é ilimitado, sua fronteira infinita,
seu declive a todos fere e irrita.
Os solos, ao fim de tudo, o enterra,
mas das ambições ele reaparece,
dos egoísmos ele se eterniza pelas terras com fronteiras.
O nosso motivo se concentra nele.
Nossos dias, o desejado domina,
nossas dívidas são por sua culpa,
e o fim também pode ser motivado por ele.
E nossas humilhações? E nossas procuras?
Nossas correntes?
Tudo isto é de posse do desejado.
Tudo isto é de posse do desejado,
do mais desejado que todas as mulheres,
do mais desejado que todos os ídolos,
do mais desejado que todas as vidas.
Somos escravos! Atados, ele nos sente.
Somos acorrentados, prometendo, ele nos mente.
E o próprio homem o fez como espécie de matéria,
mas foi o homem que, de sua matéria,
tornou-se um fantoche, um subjugado.
Foi do próprio fruto do engano
que brotou a prevalência do instinto animal.
O seu sabor tem o amargo de todas as drogas.
As securas de todas as drogas.
A secura de todas as fomes.
Assim, ele dominou nossos solos,
pois nossa face deu origem à sua erva.
O desejado de um simples papel
produzido pelas mentes insatisfeitas e nervosas,
produzido pelas paredes ambiciosas,
adorado pela regressão humana.
Regressão indolente e sofredora,
disfarçada nas cores loucas do desejado.
Assim, ele dominou todos os solos,
lugares onde vive o monstro
dos horrores e das brutalidades.
E a sua verdade diz-nos um sentido:
_ Que aquele que seguir os rastros do desejado
entregará a vertente ao covil das falsas felicidades.
Rastejar-se-á até o homem,
para derramar o sangue
ao sequioso estomago do desejado;
rastejar-se-á, desesperadamente,
para deglutir como um desesperado
as carnes de seus próprios irmãos.
Para ajuntar, qual lunático,
o falso e decadente poder
deste polvo gigantesco: o desejado...


FOME

Fome no estomago,
fome de justiça, fome de escrever e fome no âmago.
Fome de verdade, sem hipocrisia, sem mediocridade.
Fome de cultura, de revolta, de comida na fome do trabalho.
Na fome dos esfomeados a luz ilumina as favelas.
Ilumina a fome escondida de justiça depois da cultura, depois da autonomia.
_Fome apenas...
alguns dizem, mas quem pode afirmar
que esta fome apenas pode se transformar na fome de ressurreição?
De apenas um carinho, surge um filho, uma vida...
De apenas uma fome, surge na justiça um nome.
Fome em todos os lugares, os cruéis sorriem dos esfomeados,
planejam, inteligentemente, contra eles: nos buracos, nos esgotos.
Espalha-se a fome que oprime, que desalenta,
impressionante forma de protesto.
Espalha-se a fome que é crime: doença que ensangüenta,
desesperante causa de injustiça.
Mas essa fome possui uma voz
proveniente de estômagos vazios dos meninos desnutridos.
Uma voz impressionante...
Fome em todos os lugares... nos bancos, nos filhos de Baco.
Fome em todos os lugares dos pratos, nos filhos dos prantos.
Fome com mantos coberta pela mata.
Fome imensa, gigantesca... fome em nossa grade.
Perdidos o povo, o carnaval, os ranchos...
Nos casebres teias e rachados...
O campo ancho de miséria, só a fome, por entre as faces, eu acho...
Emudecidos... os estouros harmônicos dos cantos,
esmolas pelas ruas eu cato.
Fome de nascimento, fome de nação, fome de nomes, fome de nervos...
Fome de neuroses, fome nata, fome negra...
Espalha-se em tudo, espalha-se, sem perceber, em nós, em você, em nossos filhos.
Fome no estômago, fome de justiça, fome de escrever, de saber,
de se irmanar, de cantar. Fome, Forma, Forças,
Fome de viver: Forma de combater, Força para vencer...
Fome de ser humano,
Fome de viver...


FERNANDO MEDEIROS
 verão de 2005


FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 24/12/2005
Código do texto: T89964

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
155 textos (8752 leituras)
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