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Folha Seca

                         Folha Seca





Adormecida no corpo que me acolhia
Da noite invernosa da minha vida
Despertei,
Tornando-me rebento quando o frio adoçou
E germinei curiosa no ritual do sempre.
Com as minhas irmãs e companheiras
Reparti albas ainda desagradáveis
Contrastando com tardes ensolaradas
A enrijecerem-me a tenra idade.
Tudo em volta era luz, era cor
A natureza rejubilava
Na terra farta o alimento não faltava.
Desenvolvi-me verdejante
Graciosa no perfil
Junto às águas de um ribeiro
Que de tão límpidas
Vaidosa via
A minha esguia imagem nelas reflectida.
Os campos despontaram
Cobrindo-se de um garrido manto de flores e arbustos
Nos galhos das ramadas da minha morada
Vi fazerem-se ninhos
Vi serem chocados ovos
Vi nascerem passarinhos
Notei a intuitiva ternura no cuidar das crias
Igual à da mãe árvore que a mim me protegia.


O astro-rei foi-me fazendo cada vez mais companhia
Por seu lado a noite inversamente diminuía
Feliz crescia, participante em tanta alegria
As chuvas espaçaram-se e quase as esqueci
Não fora o temor que pontualmente senti
À chegada de carregadas nuvens que os céus escureciam
Assustada pelo trovejar que a terra enlameava
Achando-me de cara lavada quando a borrasca passava.


Vi homens e mulheres granjearem hortas e pomares
E os frutos amadurecerem como prendas de reconhecimento
Refresquei-me agradecida com as brisas temporárias
A amenizarem as tardes mais sofridas
Afogueada e sequiosa no zénite do estio.
Presenciei o horror e a tragédia
Quando resvés por mim predador passou
O calor das chamas
Deixando à sua volta a desolação das cinzas
E os campos enegrecidos pela dor e pelo pranto.


Chegaram por fim outros frescos amanheceres
E o sol alaranjou-se nas névoas dos entardeceres
Segui as silhuetas dos bandos migradores
Que de tantas escureciam os horizontes rumando para sul
A nostalgia foi grassando com o desconforto dos dias
E eu fui mirrando adivinhando próxima a partida.


Findo o meu tempo
Amareleci e morri
E arrastada pelo vento
Com o pó me confundi.



Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 27/08/2006
Código do texto: T226239

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Sobre o autor
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