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Dois Palmos de Terra

                    Dois Palmos de Terra






As trepadeiras e os musgos amarelecidos
Empobrecem os muros que as geadas vão queimando
Qual manto branco que enrijesse a terra
E polvilha de farinha cristalina
Serpenteantes ao longo do caminho
As cepas das videiras despidas da tesoura.
O inverno virou o auge e resvala para o declínio
Ouvem-se ao longe os mandos ao macho que esforçado
Revolve a gleba com a relha do arado
E uma coluna de fumo cinza aprumado
Da queimada oriunda do monte fronteiro
Sobe aos céus sem vento a perturbá-lo
Aqui os montes são muitos e são sagrados
Quem deles vive sabe respeitá-los.


Fios d’água que das minas rebentaram
Escorregam límpidos fragas abaixo
Procurando envergonhados outros cursos mais ousados
O Corgo, o Tua, o Douro enlameado
O mar alto e as correntes que as misturam e se misturam
Num oceano azul de complacente
Com as correntes do Amazonas no outro lado despejadas.


Diz quem de fábulas sabe
Que Orellana ao descer primo as suas margens
Perigou às mãos de figuras esbeltas e lendárias
Que mais não eram do que aguerridos nativos
Talvez daí o nome das guerreiras de Termodonte
Dado ao colosso que alimenta a profícua Amazónia.
De outro verde mais húmido e mais quente
Do que este que lhe fica entre o leste e o oriente
Mas sempre a água e a terra
Como primeiros intervenientes
E o misterioso sol Inca e a cordilheira
E os Andes omnipresentes.


Ah que de insinuações fertilizam os aluviões
No espreguiçar contínuo do grande pulmão
Atacado por outros índios menos nativos e mais ferozes
Desbaratando as madeiras verdes
Vorazes como marabuntas gulosas de profanas.
À força de braçadas afundam-se os remos nos cadernos
                                      da civilização
As velas dos rabelos enfolam de tantas pipas
                                       transportadas
Voltando ao caminho gelado
Palmilhado sachola e estaca ao ombro
E a bruma do propósito determinado
O agricultor de sonhos suspira
E eis que chegado ao torrão predestinado
Cava dois palmos de terra generosos
Não para enterrar a morte
Mas sim para dar continuidade à vida.



Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 28/08/2006
Código do texto: T227489

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