Praia de Faro

Pressinto a vaga quando se aproxima. Sei

quando e como vai crescer, o minuto

preciso do seu clímax não constitui

mistério para mim

.

Sei quando passa na rua o varredor. Esse

que figura pintado com uma pestana na caixa

japonesa de papier mâché e me assalta

em taquicárdias insuportáveis nos sonos REM

.

Sei captar os pardais

para que venham debicar migalhas

nas esteiras do meu almanxar,

hoje em dia desguarnecido

.

Sei esperar a Lua Nova para depilar

o buço ou transplantar as violetas

que me transbordam dos vasos do parapeito

da janela da sala

.

Só não sei o que é este ruído

lá fora

O que é, donde vem, por que me percorre as cordas

vocais com tal fúria

.

Só não sei onde poisar os pés

.

Só não sei donde me vem

a tua voz

(que no entanto

é a minha...)

.

.

Ilha de Faro, 9 de Maio de 1995

Inédito

© Myriam Jubilot de Carvalho

.

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Myriam Jubilot de Carvalho
Enviado por Myriam Jubilot de Carvalho em 28/04/2016
Código do texto: T5618683
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