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O morto

 

O que faço aqui?

Que festa é essa?

Não lembro que ia ter festa!

Não lembro sequer

de ter vestido essa roupa.

Eu não gosto desse terno!

Detestei essa cor!

Não combina comigo.

Nossa! 

Quanta gente

que eu não via há tanto tempo.

Estão falando tão baixinho,

eu nada ouço.

Cadê a música?

Festa sem música!

Um samba canção ia bem...

Vejo que Durvalina,

minha cunhada,

 está aqui,

adoraria senti-la em meus braços,

sempre aproveito essas ocasiões

para tirar uma casquinha.

O perfume dela é delicioso,

e noto que ela gosta dos meus braços

em volta dela.

Se sua irmã percebe nos fuzila

junto com Ivan,

marido de Durvalina...

Vejo que todos vieram para a festa,

até o bêbado

do primo Expedito,

esse ninguém chama

para reuniões familiares,

não entendo, ele aqui

e todo engomadinho...

Preciso que coloquem música,

quem sabe não aproveito,

para dessa vez fazer um convite

para a Durvalina,

faz tempo que sinto que precisamos

de uns momentos sozinhos.

Imagina essa gostosona em meus braços!

Eu ainda pego de jeito

essa mulher pra mim.

Vejo que lá no canto

estão uma turminha

que há muito não vejo,

o meu grande camarada

primo Damião,

vou até eles!...

Porque não falam comigo?

Não me respondem,

estão tão sérios!

Eu nada ouço do que falam,

essa festa está estranha,

todos estão tão calados,

até as crianças

estão comportadas.

E eu com essa roupa

Ridícula...

Vou até a mesa,

lá está lotado de gente,

deve ter alguma comida gostosa,

vou lá comer alguma coisa...

E quero música!

Gente me ouçam,

olhem para mim!

Eu quero música!...

Que confusão!

Deixe-me chegar perto da mesa,

seus famintos!

Eu

também

quero...

Que isso!

Porque choram?

Que

houve?

Eu...

Como pode...

Eu!...

Não pode ser!

Que aconteceu?

Ali está meu corpo!

Não posso ter morrido!

Eu estou aqui...

Ah não!...

Quero viver!

Mas se morri!

Agora

não dá para aturar!

Se eu morri,

não quero essa choradeira!

Despedir de mim chorando...

Parem tudo!

Façam-me o favor!

Finalmente!

Até que enfim me ouviram.

Isso mesmo!

Sem medo!

Olhando todos para mim...

Se estão aqui

para se despedir,

último adeus,

então se morri,

não tem volta,

eu quero despedida

em alto estilo,

- família unida,

- todos ficando de bem,

- Música na caixa...

Quero a noite inteira

de festa!...

Sorriem...

Eu estou bem!

Nada dói,

Acabou a dor!

Quero todos alegres,

vamos festejar!

Todos dançando!

Se for para ter emoção,

que seja de alegria

e confraternização!

Perdoe-me  os demais,

mas Durvalina,

vem comigo?

Vamos arrasar!

Permita-me

à última dança...

Glorinha Gaivota
Enviado por Glorinha Gaivota em 18/10/2007
Código do texto: T700292
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Glorinha Gaivota
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Glorinha Gaivota