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Do neto honesto!

DO NETO HONESTO!

A expressão mais sincera
E os sentimentos mais puros,
Estão nos frutos maduros,
Como no velho que espera,
Pelo inevitável fim,
Que ao partir, implanta em mim,
A tal saudade, megera.

É o sábio que entre os mais sábios,
Encontra as palavras certas,
Pra conselhos e alertas,
Retirado em alfarrábios,
Guardados com a experiência,
Que a vida lhe deu ciência,
Sem temer sequer ressábios.

Tem um coração no peito,
Que dia a dia mais falha,
Mas que constrói e entalha,
No palpitar, do seu jeito,
Um amor tão delicado,
Que ao perdoar meu pecado,
Sem dúvida é o mais perfeito.

Com pouca força, nas mãos,
Faz-me suaves carinhos,
Como as aves, em seus ninhos,
Com movimentos irmãos,
Aquecem nas noites frias
E espantam as agonias,
Do vento esgueirando em vãos.

É ele que em lentos passos,
Levou-me sempre em caminhos,
Com flores e sem espinhos.
Sem forças pra ter-me aos braços,
Seu colo foi pés no chão,
E demais a emoção,
No calor de seus abraços.

A saudade que me espera,
Há de aguardar por bom tempo,
Pra tirar-me o passatempo.
Pois virarei uma fera,
Se ao chegar em hora errada,
Quiser levar, enganada,
Meu provedor de quimera.

É o sol que brilha em meus dias,
O luar de minhas noites,
Que me amenizam os açoites,
Das horas tristes, vazias,
Depois de alguns desenganos,
Entre os amores ciganos,
Resultados das orgias.

Esse lenço ao meu dispor,
Com a tez encarquilhada,
Faz meu sofrer não ser nada,
Por mostrar-me que essa dor,
Será logo dissipada,
Depois de nova alvorada,
Do tal sabiá cantor.

Diz-me ainda e vai além,
Com rica imaginação,
Que mais vale ter na mão,
Seguro um só vintém,
Que possuir um tesouro,
Que não seja duradouro,
E não mereça o meu bem.

Segue-me por toda a vida,
Indiferente aos percalços,
Da saúde em sobressaltos,
Mantendo-me a guarida,
Embora titubeando,
Ao chegar de quando em quando,
Às portas da despedida.

É o juiz dos meus crimes,
O padre pra quem confesso,
Quem me orienta o progresso,
Deixando sempre mais firmes,
Os meus desejos do ego,
Por isso, assim mais me apego,
Aos sentimentos sublimes.

A sua cabeça branca,
Que me clareia no mundo,
Cala no peito, ao fundo.
Pois toda palavra franca,
Dessa boca desdentada,
Jamais pendeu fracassada,
Ou lhe deixou de carranca.



Agora já nem me vê,
Esses seus olhos profundos.
E estes lençóis imundos,
Amassados por você,
Trituram meu sentimento,
Empanando em sofrimento,
Este seu abaetê.

Nesse momento eu entendo,
Pela cena deflagrada,
Porque a vida é sagrada.
Ao ver você falecendo,
Quase todo destruído,
Deixou-me aqui construído,
A cumprir o exeqüendo.

Sincero é meu manifesto,
Que hoje aceita o seu fim,
Por ser orgulho de mim.
Se à fé e a verdade presto,
Agradeço-lhe, por tudo,
Ao ser, tamanho sortudo,
Também seu neto e honesto.
Condorcet Aranha
Enviado por Condorcet Aranha em 01/12/2005
Código do texto: T79718

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Sobre o autor
Condorcet Aranha
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 76 anos
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Condorcet Aranha