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Razão de Ser. Sentir meu viver?


Sempre pensei ser, a razão do meu próprio viver,
Á que doce ilusão pensar ser tão auto-suficiente que de ti não precisava,
Que de tuas palavras meus sentidos não necessitava,
Que seu toque a mim nada representava;
Triste razão que veio a tona agora que tuas palavras não são a mim.
Que seus sorrisos não são mais para os meus olhos,
Nem seu toque é do meu corpo, senhor.
Com toda razão que guardei em mim, perdi minha doce ilusão...
E as paredes antes brancas e perfeitas,
São de um tom carmesim e de uma forma concreta que fere, meus olhos e sentidos sensíveis.
Mostram-me um quarto outrora cheio de luz e espaço,
Hoje apertado na escuridão que eu não posso evitar.
Não há sorrisos nem festa a me ver chegar,
Nem a quem eu possa dedicar minha nova obra.
Dedicatória fria e sem gosto, minha pena forma em um antigo pergaminho.
“Á minha razão, que tomou as rédeas do meu viver, e abandonou, meu antigo e real ser.”

Nem a pena e auto piedade eu posso ter,
Minha razão não me deixa esquecer, que este é o caminho que eu não escolhi percorrer.
Que escolhi os caminhos das antigas e raras bibliotecas, salões cheios de musica, e de talentos florescendo ao meu encontro.
Talentos que eu poderia como senhora do recinto acolher, e mostrar o meu mundo,
Um mundo belo, forte e viciante. Um mundo perfeito.
Mas agora que os salões estão vazios e os músicos descansam, para o próximo recital,
Minha voz acostumada à escuridão e proteção da noite, se retorce em jubiloso canto de solidão.
Ao chegar em casa, no silencio da manhã nada mais vê, do que a si mesma em reflexo prateado do espelho do quarto vazio.
Nem as lágrimas que os poetas, dizem são um balsamo da alma...
Eu me permito, pois ninguém me verá chorar...
É nestas horas que vejo claramente a loucura flertar com meu viver,
“Ninguém me verá chorar...” Como se houvesse alguém aqui comigo.
Alguém a quem eu possa contar meus segredos,
Segredar meus medos, relaxar em um abraço.
Alguém a quem eu possa ouvir sussurrar,
A quem eu possa chamar baixinho a noite que ele vai me escutar.
A quem eu possa ser o seu lar.
É claro que minha razão, me fere, me tolda e fecha meus olhos para tudo que eu deveria almejar.
Cala o coração, que clama por algo mais além de sucesso, de luzes na ribalta...
Que pede aos altos brados com lágrimas nos olhos uma chance de respirar, uma chance de existir... Novamente.
Mas a razão o cala, lhe faz ver as decisões há tanto tempo tomada, e que ela – a razão de ser - jamais vai deixar um arroubo juvenil fazer sombra.
Creio que minha razão é um tanto suicida e orgulhosa,
Não vê que ela pode conduzir a carruagem, mas ele – meu coração, meu sentido de viver - conduz meu talento.
Não vê o que todos estão vendo, meu morrer a cada instante.
Meu talento, fluindo de forma lúgubre e lúdica aos olhos dos espectadores todas as noites, em meu próprio palco.
Não vê meu sedento coração parar de bater aos poucos em forma rebelde de tortura,

Minha alma refém de sentimentos outrora servos fiel, desta pobre donzela alma-Flor.
Procura consolo, na taça de cristal, no liquido doce e carmesim que ele contém...
Achando graça da tristeza presa a seu sentir,
Desejosa de sorrisos, não qualquer, mas aquele tão seu... De outros tempos perdidos.
Carente do toque conhecido que agora não mais lhe pertence.
Que fez casa em outro viver... Onde talvez não seja a razão o senhorio dos aposentos.
É espectadora silenciosa da peça que retrata sua morte lenta e cruel, na briga entre sua razão – tão senhora de si – e seu coração – tão frágil e despedaçado.
Derrama lágrimas soluçantes e suas pálpebras se fecham hora por dor, ora por amor.
Anda no camarote lhe reservado, e busca a solução,
Porém a quem recorrer para solucionar o desfecho desta peça?
A razão que a tudo diz não?
Que foge a cada toque de amor, que se prende a planos retos e como dizer hoje, sem mais razão de ser?
Ou ao coração que a tudo se entrega, que vive de paixão e de sentir,
Que se despedaça, ao ver partir o bem amado, mais em seu silencio tímido não ousa gritar a plenos pulmões “Eu te amo”.
Não mais depois de se entregar tantas vezes e proferir, está sentença a uma única pessoa, aquela de quem sente falta,
Como se fosse o sangue em suas veias... Carmesim.

Presa entre a razão eu o sentir minha alma, entrega os pontos por hora, pra logo depois resolver lutar.
Foge de sua prisão sem paredes.
E vejo a taça de vinho cair.

Minha razão entra em alerta e corre ao ouvido da alma,
- O que fazes louca, não vê que todos observam sua loucura? Quer destruir nossos sonhos?
O coração bate forte de encontro a alma, e sorrindo lhe diz.
- não tenha medo amor meu, eu ainda estarei aqui.

Meu corpo se encontra em frente tão conhecida,
Em frente á uma porta que durante anos foi tão minha.
Minhas mãos rápidas e minha voz treinada pra enaltecer em meu palco,
Levanta-se e pronuncia nome tão meu: o nome de meu belo amado, mais belo a cada passar de anos e marcas em seu rosto.
Minha razão grita:
-você acha que seu descaso será perdoado? É mais inocente do que eu pensava.
Meu coração sentencia meu fim:
- não importa o que sempre importará é que você amor meu lhe dirá e não terá mais e “E se”.

E aqueles olhos olham para mim,
E eu vejo tempestade que se abate em seu viver.
E me lembro de cada lágrima que fiz estes belos olhos derramar...
Recordo-me de cada palavra dura que minha voz melodiosa que proferir somente, pra ferir e sangrar.
Aquele que à minha alma sempre será o sul e o norte, o começo e o fim.
Escuto meus balbucios, e não vejo clareza neles.
Cadê a coragem guardada pro momento.
Eu quem encanto platéias lotadas, e vejo meus pensamentos contados em pergaminhos antigos.
Não consigo nada falar? Nada demonstrar?
Não passo talvez de uma boneca de porcelana que tem o único intuito enfeitar nunca sentir?
Então porque meu coração acelera, minha mente bambeia em frente a ele.
Que silencioso, me fita, mostrando a mim sem nenhuma palavra ser necessária.
O quanto minhas falhas o destruíram, o quanto cada ato meu marcou definitivamente a peça do viver dele.
Minha razão tenta dominar, tenta dizer algo virar as costas e voltar aos domínios dela.
O apartamento branco e vazio.
O coração acelera, e grita tentando se livrar dos grilhões há tanto tempo lhe impostos.
E eu minha alma-flor?
Parada olhando pra ele, pedindo a forças pra palavras saírem, pedindo em silencio o pedido de perdão que deve ser expresso.
Minha face fria e branca como a neve, sente o rastro fervente fazer caminho em seu domínio.
As lagrimas vertidas aparadas, pelo coração, e aceitas pela razão, e os soluços preenchem o corredor.
E o espaço entre nós, e diminuído,
Nem ao certo minha alma sabe se foi ela que deu o primeiro passo ou ele meu amado prometido, que fez a dor sumir.
Com seus braços ao redor de meu corpo fraco, e seu coração batendo de encontro ao meu.
Em silencio, com apenas meu choro, pode sentir suas mãos tão minhas em meu rosto,
E claro como a noite de lua cheia eu vi este sorriso tão meu.
Minha alma sabia que devia dizer tudo... Agora pedir perdão pelos erros egoístas... mas
Apenas consegui dizer:
Desde que você se foi vida minha, não consigo mais achar minha casa, ando encenando minha morte todas as noites desde que eu te magoei,
Tentado achar uma punição adequada por destruir minha alma, mas nem isso eu consigo sem você,
Você é meu porto seguro e a tempestade que me faz voltar pra casa,
É o talento e a força de minha voz,
É pra quem eu canto todas as noites desde os primórdios.
É a alma que eu quero ao meu lado e o toque que me faz falta,
É a voz que me completa, e o silencio que me conforta,
Não posso lhe pedir perdão, pois não á perdão para o ato de suicídio...
Pois quando lhe machuco, e lhe faço chorar, é uma adaga fina destruindo meu coração, apressando meu caminho em direção a morte.
Só lhe peço meu amor que me deixe ser novamente a sua casa, como você sempre foi a minha.

E pude observar todos os trejeitos de sua face ao ouvir minhas palavras, e antes que minha mente possa comandar minhas pernas pra fugirem novamente.
Em meus lábios senti o gosto, que há tanto tempo necessitava.
E o abraço que me fortalecia, se tornou possessivo.

E cheguei em casa... Na sala branca, aonde uma cama carmesim me esperava,
Onde descansei e dormi nos braços meus.
Sentindo o leve ressonar de meu amado, acordei,
Minha mente procurava meios de fugir, meu coração se entregava, e minha alma, olhava de seu camarote agora não mais prisão.
Imagino se serei feliz pra sempre, se desistirei de meus sonhos de grandeza.
Mas sinceramente, não há sonho melhor do que este de estar novamente em casa, com ele.
Levantarei novamente esta noite minha voz, em meu palco ao meu publico,
Mas serão somente a ele estas palavras.
Somente será para alma dele, a minha alma,
O meu amor eterno e presente; não deixarei meu egoísmo lhe ferir novamente,
Pois eu sei que jamais sobreviverei à outra punhalada em meu coração.

E em minha casa, e em meu quarto ele adormeceu,permitindo meu sul encontrar meu norte.
Não sei o futuro, porém...
Eu estou em casa.
E nada mais importa, porque eu sou o lar e ele é meu lar.

Vivian Sales de Oliveira
23/06/06
Vivian Drecco
Enviado por Vivian Drecco em 24/06/2006
Código do texto: T181324
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Sobre a autora
Vivian Drecco
Guarujá - São Paulo - Brasil, 32 anos
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