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Canção para Bukowski

Era então a primeira vez que te conhecia, depois ainda te conheci mil vezes.
Não sei bem como aconteceu
Não me lembro como estava a noite. Sei que era madrugada e eu já dava sinais de embriaguez, vermelho como um cossaco.
Alguém cantava, muita gente falava, muita gente ria.
Nebulava o halo de sentimento, embora os corações não estivessem à flor da pele.
O suor lavava meu rosto com setas cáusticas.
Cheguei a me lavar mais de uma vez.
Não via ninguém, meus movimentos eram estereotipados.
Deixava me levar pelo acaso.
O lugar não era místico, era comum como o cotidiano.
Mas se me lembro, meus sentidos estavam de sobreaviso porque a atmosfera depositava em segundo plano essas coisas e a realidade parecia suprimir-se sob meus sentidos.
Digo isso, porque de repente você veio.
Como se escapasse da realidade e ganhasse vida à minha frente como uma fantasia.
Como se eu a criasse, como se você não fosse real.
Algo que não existia e surgisse de repente, do nada, do desejo de alguém.
Isso eu me lembro bem, eu te via de perfil, rindo sem parar de alguma besteira que dizíamos. Gestáltica.
Não vi mais nada, não vi mais ninguém.
Se as pessoas ainda continuavam em volta, se sorriam, se choravam, não sei dizer.
Você às vezes sorria monologado, mas não parava de sorrir.
Expandindo pelos olhos uma luz intensa que me atraia, como um garimpeiro atraído pela luz do seu primeiro ouro.
Luz branca que entrou pela janela da minha alma, atingiu minha escuridão e espalhou seu fascínio dentro de mim.
Senti gosto de alívio, percebendo que o mundo estava vivo, como nascer do sol de domingo.
Antes disso não a conhecia.
Não sabia nada de si.
A não ser aquele sorriso inquietante. Aqueles cabelos negros. Aquela estatura perfeita. Aquele rosto não só bonito, mas transcendental.
Não sabia nada. Idade. Estado civil. Endereço. Faculdade. Desejos. Necessidades. Fantasias. Delírios. Sonhos. Momentos de felicidade. Por que chora. Por que ama. Por que ri. Nada. Não sabia nada além daquele sorriso que me convidava, sem ser pra mim.
E eu começava a pensar nos obstáculos. Na falta de oportunidade de dizer: “adorei você”.
Estes desertos áridos. Esses medos de inconveniência. Esses tais obstáculos que podem separar o destino de sermos amantes ou amigos para sermos inimigos. Momentos reais de fantasia e medo que nos transporta imediatamente para o mundo pré-histórico onde nasceram os reflexos e instintos de sobrevivência. A mão sua. O nariz sua. A fala gagueja. A perna treme. Acontece taquicardia.
E por fim o desenlace. A certeza de ter encontrado algo especial nessa alma, que não encontrei em nenhum outro tesouro. Algo não só bonito, mas verdadeiro, com tristezas, alegrias. Coisas que renovavam a esperança na vida.
Sérgio Caldeira
Enviado por Sérgio Caldeira em 26/12/2010
Código do texto: T2692326

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Sobre o autor
Sérgio Caldeira
Itapecerica da Serra - São Paulo - Brasil
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Sérgio Caldeira