Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Ainda bem que não vai passar ;)

A saudade que eu sinto não vai passar, o amor não vai passar, as lágrimas não vão passar, o seu cheiro não vai passar, o gosto dentro de mim não vai passar. E nem as lembranças, as mensagens, as cartinhas curtas e em letras de fôrma, os bilhetes jogados, as brigas tão resolvíveis, a alegria mesmo na segunda-feira, a viagem a cidade que eu não sabia que existia. A banda não vai passar, não vai cantar e eu não adianta chamar o meu amor, porque ele não vem. Eu chamo, viu, às vezes eu grito de noite e em meio a lágrimas (as que não vão passar), eu grito e imploro e peço porfavor, toda educada e agradeço e desisto e durmo cansada, o cansaço que também não vai passar. Não adianta mais chamar porque agora ele não me ouve mais, o meu amor desistiu de mim, eu acho, da minha unha comprida (agora é) e dos roxos pela perna, ele não vem mais e não virá.
Eu prometi. Mas tenho medo de ficar que nem ela, sentada, esperando pra sempre, até o outono ser inverno e o inverno ser primavera, porque, quando o verão chegar, eu vou me lembrar de tudo aquilo que não vai passar e talvez eu sorria qualquer coisa e diga pra mim mesma, assim, bem baixinho, aindabemquenãovaipassar. ;)


.
.
.

e tem horas que todas as boas intenções do mundo não são suficientes,
porque a gente nunca vai saber como agir certo. não adianta o coração
estar no lugar certo, porque sempre as palavras saem erradas, e a
gente tropeça no ar e dá de cara com uma parede de negação. e porra,
dói. minha cabeça deveria estar calejada, já, de tanto dar de cara com
essa parede. mas parece que não dá. só prova que ser cabeça-dura não
dói menos. a teimosia ainda não se externalizou o suficiente para me
proteger de dores metafóricas, parece. mas tudo bem.
às vezes fico rezando para que chegue o dia que os calos cheguem. o
dia para que a insensibilidade me impeça de continuar tentando salvar
o mundo. esse tipo de idealismo cego não me faz bem. o romanticismo
infindável menos ainda. me recuso à acreditar em certas coisas. me
recuso à sentar e assistir as poucas coisas que me dão esperança
saindo do meu alcance e se tornando exatamente aquilo contra qual a
gente tanto lutou e esperneou num passado não tão distante.
já teve aquela sensação de andar pela rua, sem preocupações, olhando
as estrelas, esperando que à qualquer segundo o céu fosse desabar numa
explosão de estrelas, e os prédios fossem cair à nossa volta, porque a
única coisa realmente importante nesse mundo inteiro fosse a gente
estar de mãos dadas no meio disso tudo? eu sei que você já teve, eu
estava lá. se os prédios de fato não caíram, foi mero acaso, ou talvez
a engenharia moderna. mas nunca vou saber se caíram ou não. tinha
coisas muito mais importantes na minha cabeça. do tipo como iríamos
envelhecer numa casa cheia de livros, com um sofá pra ficarmos um em
cada ponta lendo, com as pernas cruzadas no meio. e sobre ter um gato,
que iria ficar pendurado no seu ombro, ou deitado na minha barriga. e
como nunca precisamos falar, mas talvez se tivéssemos falado, ainda
estaríamos vivendo aquela felicidade que desconhecia o amanhã. e sobre
como talvez eu teria descoberto antes que era só eu estava sentindo
aquilo tudo. como talvez algum dia eu vá parar de sentir isso toda vez
que me apaixono, e como só de pensar que talvez vá chegar o dia em que
eu não vou mais me apaixonar assim, me dá um vazio horrível. pra que
viver num mundo onde os prédios só significam aglomerados de pessoas
infelizes vivendo sob um mesmo teto sem cruzar olhares no elevador, ou
muito menos palavras de consolo em noites chuvosas. prédios, ruas,
carros, barulhos, são nada mais do que um pano de fundo cinza, jogado
ali para destacar como as nossas pequenas explosões de cores diárias
são realmente coloridas. é saber que nossa pequena revolta é essa.
nós, os românticos, não temos mais lugar no mundo. pouco a pouco, a
gente morre, em meio à um mar de dívidas, impostos e ônibus cheios.
mas enquanto isso não acontece comigo, eu vou lá, passear pela rua. e
se você vê uma garota dançando no farol e cantando junto com a
música, é muito capaz que seja eu. e se eu te desejar um bom dia, não
estranhe. é de coração. eu queria que as pessoas entendessem tudo, mas
às vezes é difícil acreditar que elas consigam. não que isso já tenha,
nem vá, me impedir de ao menos tentar. vocês também deveriam. tentar,
digo. pelo bem do pouco que resta da esperança.
Fer Bainy
Enviado por Fer Bainy em 21/11/2006
Código do texto: T296923

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Fer Bainy
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 24 anos
59 textos (7752 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 14:36)
Fer Bainy