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CARTA PARA UM VELHO AMOR

Oi, meu amigo.

O Milton Nascimento
acaba de cantar "Travessia"
e me lembrei de mim.
Quantas vezes eu segui pela estrada
esquecendo alguém...
Esqueci?
Eu quis a morte...
Quis?
Ah, que engraçado!
Amar, eu?
Será que um dia amei?
Sou mais Iglésias:
a grande "trapaceira do amor"...
Hoje, agora,
preciso de um amigo,
ombro pra chorar,
mão pra segurar,
coração pra acolher.
Você tem?
Tem pra me dar?
Disse um dia que tinha
e eu não levei a sério.
Estava bêbado e tão machucado!
Eu não sei se é você
o amigo que eu quero.

Não fique triste,
eu também não me levo mais a sério...

Escrevo...
Mas gostava mesmo é de estar junto
numa mesa de bar, num motel,
olhando seu rosto tão lindo,
sentindo seus olhos me querendo sem pressa.
Gostava mesmo é de estar falando com você
como naquela noite fria
Adoniran's Bar... Alpes Hotel...
Boca do Lixo...

Um dia você disse que me amava
não podia mais viver sem mim.
Depois...
Você conseguiu viver sem mim.
Não sei o que foi feito do nosso amor.
E o que foi feito do seu ciúme?
Tô com saudade...
De você?
Também.
E de mais gente.
Tô sozinha
e perguntando:
Cadê? Cadê? Cadê?
Cadê você?

Minha cachorra está aqui pertinho.
Lambe meu pé.
Dorme comigo.
Me abana o rabo.
Ninguém mais abana o rabo para mim.
Preciso dar valor à minha cachorra.

Queria que você sofresse muito,
pois quando sofre você vem correndo.
Lembra?
Ligava de madrugada
de uma estrada,
de uma praça barulhenta,
de um boteco:
"Preciso ouvir sua voz".
Foi quando você pensou me amar.
E eu me senti tão importante!
Eu me senti rainha. Até passei um telegrama.
Ah, quantos telegramas!
Lembra?
Até anúncio no jornal eu pus:
"Volta pra casa".
... achando que eu era a sua casa...

Agora está tudo bem
você tem casa,
cama,
comida, roupa lavada.
Você não tem desespero.
E eu desejo que tenha
pra poder ter você.

Tô com saudade... só de você.
Me manda alguma coisa
um recorte de jornal,
uma carta, um cartão,
uma flor,
um papel de bombom.
Alguma coisa de você,
algo que esteve em sua mão.
O carteiro inda passa por aqui.
Só passa, não entra.
Acho que eu vou botar outro anúncio no jornal:
"Precisa-se alguém".

Lembro coisas de você.
Coisas gostosas, ruins,
briguinhas bestas, momentos de ternura.
É... acho que não esqueci você.

Por que não me escreve?
Já sei, por medo,
você tem sempre medo de se comprometer.
O Vinícius já dizia que é preciso ter peito.
Peito você não tem.
Mas tem outras coisas... e eu gosto...
Você já ouviu a Simone cantando "A Outra"?
Viu que engraçado?
A outra de hoje
não é a outra de nosso tempo,
o tempo em que outra era "a outra na vida dele"...
É a total revolução dos costumes.
E onde fica a sagrada moral?
Hoje, a outra é a outra...
Ou sempre foi e só agora perceberam?
Você já dizia isso há muito tempo:
"A outra, lá, tá esperando".
E sempre voltou para a outra,
deixando-me sozinha no quintal.

Quando eu vou ter lugar?
Lugar eu sei que tenho
nesse seu coração
que me dispensa da nota fiscal.

Sou, eu sou,
embora seja inútil ser.
Sou a mulher que foi só pra você.
Duvido que alguém seja capaz
de amor igual.
Nem eu serei de novo.

Às vezes, de relance,
me passa na cabeça
que você me ama.
Só de relance...

Talvez eu volte pros seus velhos braços...
Talvez eu não agüente sem o novo amor...
Talvez me renda ao amor que virá...
Talvez dê uma de Marília de Dirceu
e permaneça fiel
ao amor que não deu.

Tá vendo como agora eu sei das coisas?
E o que mais sei é que não sei!

Acho que contei tudo.

Não, esqueci de contar
que daqui vejo a lua
e que a noite está linda
e quente, lá fora.
E que meu novo amor
- foi praga sua? -
foi embora.
Que vou fazer um lindo samba-enredo
para a Escola.

Esqueci de dizer
que você tem razão:
sou mesmo sua.
Mas... me deixa comigo...

Té mais, amigo!
Sal
Enviado por Sal em 29/09/2005
Código do texto: T54738
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
507 textos (44787 leituras)
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