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A LINGUAGEM DOS ANJOS.


I
Amaria...
Disse o Anjo.
Por que amar a
moura palavra
que estala à boca
se ele não a amou
nem a amará? 
 
Pressentindo desejos
Corre com os Sarracenos.
Em direção ao abrigo
gotas de chuva lavam a cabeça
borbulha como um sorinsal.
Efervescente  pergunta: 
Por que aquele verbo, e,
no futuro do pretérito,
oh, Moura língua,
que somente
em ti se conjuga
esse tempo verbal
inexplicável?

II
Anjo, Anjo... 
Há coisas que não se perguntam diretamente,
são retóricas lançadas ao vento;
há respostas que não carecem explicações...
Poemas são versos do avesso de alguém,
palavras das entranhas em frasais falácias
- mera junção de sentimentos -
com verbos que defloram vidas.
Se o se existe, condicional variável,
acudam-te os Anjos e te escondam
de forma que te percam de vista
e teu coração se preserve
dos sofrimentos do ser,
quando este conhece muitas conjugações
todas no tempo do Amor.

III
Sendo Anjo não sou homem
sendo homem não sou Anjo,
simples assim, ensinaram-me.
Antagônicos são
o dia e a noite; o bem e o mal;
o nascer e o morrer, intangíveis como o Amor. 
Orienta-se e desnovelarás a vida!
Quem me explicaria o Amar? 
Poema maior de fé em ti
faço sem  corpo o sonho.  

IV
Ah, meu Anjo, já não sonho
certezas e celestes habitar,
caí na esbórnia!
Esqueceram-me verbais e nominais
as desinências  do Amor.
Há, agora, uma moda borbulhante
que se serve nos copos compridos
dos dias tremendamente quentes
e áridos dessas terras daqui, 
verdadeira viagem
não para Pasárgada, mas, como disse,
para a Esbórnia. Ao se chegar lá,
ouve-se uma música estranha,
os ouvidos não definem os instrumentos.
Dancei com os Bárbaros,
dei ouvidos aos Cristãos,
beijei um Mouro que marchetava a mesa.
Haveria música assim no fim do mundo?
Quando dei por mim,
as cócegas no nariz
que me fizeram acordar rindo,
não eram efeito do espumante,
eram lambidas do meu cão,
que amigável me acordava para a vida.
Assistir a ação em tempos e modos
preterizados e imperfeitos
- que tu me dás a conhecer.
Conspiram contra as minhas
conjugações do simples
presente e futuro.
Contudo, também te amaria!

V
Ensinou-me um rouxinol:
não há melodia mais linda
que a língua dos Anjos!
Não se julga modos
tudo é livre no agora,
dádiva das dádivas é o presente.
Vai embora o passado
e do futuro não sabemos;
quem o alcançará?
- Ama-me hoje, sem tempo!

Disse-me o Anjo ao deitar-me:
- Faz-me ser Amor! 


VI
Ama-me dessa forma
única que me dá o prazer 
estalando longamente  a língua
já que da boca do meu Anjo 
a voz nunca ouvi...
Ama-me agora,
amanhã é tempo do não sei. 
Basta-me  dizer que contigo 
conjugaria outros modos 
verbais que não domino. 


VII
Que sei eu da língua divina,
Anjo, para poder explicá-la?  
Nada, senão que hoje estou
amanhã vôo e caio,
derreto-me no enredo remetido, 
e, me faço estanque, 
imune às paixãos terrenas...
Hoje, só hoje me importa,
ontem e amanhã já não sou.

Deitou-se o Anjo ao meu lado.
Tirando-lhe as penas
vi que era homem 
crescendo em humanidade.
Pousou-me a  mão no seio nu,
e antes que o beijasse
caiu exaurido em sono profundo.
Aprendi mais sobre Anjos.
Ser homem é bem mais difícil
que velar e voar. 

VIII
Contempla, contempla:
plácidas  são as carnes repousantes...

         - Teu Anjo dorme, mulher!

Cantava o Rouxinol em alinhamento. 
Não dormitei os olhos que
acompanharam as badaladas 
noturnas, uma após outra. 
Traiu-me o sol aos primeiros raios
clareando-me a face 
assustou-me e acordei. 
Na cama desfeita não sei se amei.
Se apenas um Anjo velou meu sono, 
ou eu o velei.

Penso que sim, 
penso que não, 
penso que o amei 
e ele envergonhado se foi, 
deixando uma pena pousada 
sobre meu seio nu. 



IX 
Vezes de perguntar pergunto.
Vezes de calar calo.
E mesmo no que há de simples
- sem sentir os cheiros da pele -
nos estranhamos antes de entranhar.
Não sei de onde vem isso,
há um  abrir,
então acho que toco.
De repente um fechar,
então  nasce o silêncio
mordaz e cáustico.
E eu de cá não percebo:
que há nesse abrir e fechar
de asas que não exala cheiro?
Que tipo de Anjo és que não me acolhes
nem me deixas aos teus pés ficar?
Que maldita é a sina do Anjo
que ao sexo se faz  privar?


Disse a voz a que não dei ouvidos:
- Ele não te pode amar!
- Ele não te pode amar! 
- Não existe  bom e mau 
   nem  bem e  mal ...
   Existe  viver e  saber crescer...

No amarelo do sol
ofuscados olhos 
viram o Anjo voar, 
dizendo penalizado: 
Amaria... 
Amaria... se me fosse dado  Amar.

Do livro  "Desatados"  - 10 poemas em 10 atos. 
 

 

 
Divina Reis Jatobá
Enviado por Divina Reis Jatobá em 26/08/2007
Reeditado em 30/12/2008
Código do texto: T625204

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Sobre a autora
Divina Reis Jatobá
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 56 anos
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Divina Reis Jatobá