Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

GUERRA DE AMOR

Hoje houve a declaração formal de guerra.
Recebi um bilhete, devolvi outro,
(tudo por baixo da porta),
começamos a batalha.
. . .
Me foi enviado, às oito da manhã, um papel em branco,
delicadamente dobrado, suspeitíssimo, perfumado.
Dobrei-me, apanhei-o, (tudo por baixo da porta),
lentamente abri-o e, pasmem, eis o que encontrei:
"Te amo desesperadamente.
Também calmamente,
furiosamente,
amorosamente".
Logo abaixo, um beijo em batom,
cereja.
(Senti que um dos joelhos quase dobrou).
Maquinei planos, bolei estratégias, desenhei ataques.
Enviei, via "por baixo da porta", a resposta ao primeiro ataque.
Ela, (contou-me espiões), apanhou o origami, desmontou-o,
e eis o que estava escrito:
"Crio suspiros especiais que envio pela noite até seu quarto.
Lanço palavras que se engancham nas bordas das estrelas.
Te amo, te quero, te desejo, te espero, te procuro,
o teu mais sincero amante".
(Disseram que ela chegou a morder os lábios).
Na manhã seguinte, mal tinha aberto os olhos, visto o sol,
olho pelo olho mágico e vejo, com espanto, uma enorme caixa
retangular parada defronte à porta.
Cautelosamente giro a chave, saio, volto-me e apanho o estilete,
vou abrindo o embrulho e levo o maior susto da minha vida.
Lá estava a caixa que sempre desejei, a caixa de serrar
uma mulher ao meio, novinha em folha, com um bilhete:
"Para o mágico que produziu o truque verdadeiro:
Me fazê-lo amar".
Vocês não sabem, sou mágico, amador é claro, me apresento
em festas aqui e ali, sonho com Hollywood.
. . .
Acusei o golpe. Forte. Um upper-cut bem colocado.
O troco teria que ser dado no mesmo tamanho,
com a mesma força, deixá-la desorientada.
Mal começou o dia seguinte e (segundo meus espiões),
ela recebeu o torpedo.
O embrulho estava parado defronte à sua porta, retangular,
quieto, "será uma bomba, será uma mulher de burka,
o que será?...'
Ela olhou pelo olho mágico, cautelosamente girou a chave,
saiu, voltou, apanhou o estilete, abriu o embrulho,
levou o maior susto de sua vida.
Lá estava a melhor máquina de fazer churros, novinha,
ela sempre quis ter uma, desde criança, quando ia ao parque,
ficava admirada com aquela máquina, sonho de infância,
com um bilhete:
"Para a mulher que descobriu a senha do meu coração.
E pode entrar quando quiser".
(Ela chegou a desenhar uma máquina...).
. . .
Acusou o golpe. Um gancho de esquerda. Preciso.
Dizem (os espiões), que ela murmurou algo como
"ele vai ter o que merece..."
. . .
A guerra tinha chegado ao seu auge.
Insuportável continuar com pequenos ataques.
A batalha final ia acontecer.
. . .
Vesti-me de acordo, camuflado, para dizer a verdade
estava nu, sem nenhum piercing, nenhum brinco, anel,
nenhuma bandana na cabeça.
Soube (pelos espiões), que ela estava linda, nua, sem nenhum piercing, nenhum brinco, anel, nenhuma bandana na cabeça.
Escolhemos um hotel nos arredores da cidade, a suíte principal,
reservada pelos nossos mensageiros, com flores e champagne,
música, (ela gosta de Rage Against the Machine), (eu, de Arctic
Monkeys), cortinas aveludadas e muito cetim.
Hora marcada lá estava eu, furioso, lá estava ela, em guerra,
pontiaguda, portas fechadas, música alta, champagne aberta,
penumbra, perfume de flores silvestres, começamos o combate.
Nem tudo é possivel de se contar.
Apenas digo que o combate foi feroz, cheio de escaramuças,
delicioso, eu diria que foi a guerra perfeita, nem mortos e nem feridos,
nem vencedores e nem vencidos, apenas uma vantagenzinha aqui
e outra ali, um flanco abordado com mais vigor, um vaso quebrado,
flores espalhadas pelo chão, uma marca mais forte, abraços
mais contundentes, a fusão.
Contam até hoje que toda a cidade comenta o fragor do combate.
Falam dos fogos que saiam pela chaminé, as luzes que explodiam
pelas janelas e o estrondo antes da quietude.
É só o que posso contar.



 
 
Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 10/09/2007
Reeditado em 10/09/2007
Código do texto: T646141

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Orivaldo Grandizoli). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
7328 textos (106707 leituras)
1 áudios (10 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/08/17 15:48)