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Último Poema de Amor

Meus caros, este não é um poema de Amor.
O Amor achou em si seu próprio antagonismo
E derrotou-se; fez aliança com o temor,
Tem como apêndice o tranqüilo conformismo,

Tornou-se o fiel cônjuge do ciúme;
Divide o impuro leito com a traição,
Do ódio é guardião do apaixonado lume,
Do risonho escárnio é o legítimo irmão.

Torna o poeta a repetir que não versa ao Amor.
Este afivelou ao rosto a máscara do desprezo;
Abandonou o bandolim este roto pierrô,
Que nas cinzas de si mesmo encontra-se preso.

Insulte-se, execre-se, cuspa-se no Amor!
Pois o Amor, meus caros, nem mais é quimera.
É cadáver fresco no derradeiro estertor,
Comendo a carne numa autofagia de fera.

Que é senão eufemismo, blandícia aos ouvidos?
É instinto, busca infame de gozo carnal,
Da cópula mil desejos incontidos,
Anfitrião da dionisíaca saturnal.

Veneno ofídico a preencher pele e sangue
De pontos ígneos, inimigo da sapiência
Humana; transforma o corpo em massa exangue,
E induz o cérebro a perigosa dormência.

Ignóbil arlequim dono de um caleidoscópio
Mágico, a atrair para seu circo mesquinho
Os tolos; em suas taças destila mortal ópio,
Dando-lhes como mortalha o seu riso escarninho.

Quereis Amor, meus caros? Procurai-o em escuros
Becos, camas recendentes a afrodisíacas
Ervas, e vereis que o Amor, nestes paços obscuros
Não difere do que o touro sente pelas vacas!

É a lascívia oculta sob os lençóis, volúpia
Que se abafa nos travesseiros; aborta
A verdade, e numa fingida aparência pia
Declama seus poemas, todos letra morta.

Muito mais sabiamente explica a Biologia:
É reação físico-química, que irracional
Deixa quem ama; diz ainda a Psicologia
Que de inteligente torna-se o homem animal.

Fala a Fisiologia: é vasoconstrição,
Dilatamento súbito de pupilas, cio
Atiçado pelos ferormônios; atração
Fatal à vida daquele que para si o atraiu.

Madrigais sob as sacadas, sonetos à lua?
Anacronismos! A lua é baça como um olhar
Bêbado; as sacadas encerram-se sobre nua
Donzela que o deixou de ser, após pecar.

Amor! Soam das igrejas o campanário
A celebrar seu casamento com a loucura;
Na lua-de-mel ei-la a tecer o sudário
De seu esposo, para cobrir-lhe a carne dura...

Jaz o Amor em sua lápide, podre e decomposto,
Tendo como réquiem o sorrir da insanidade;
Enchendo o ar de pestilência, sobre si tem posto o
Germe do vício, devorando-lhe a eternidade.

Suas românticas imagens jazem esquecidas;
Pois suas princesas louras, de azuladas íris,
Nada mais são que prostitutas adormecidas
Sobre catres imundos, roídas pela sífilis.

Murcha está sua grinalda de flores; as rosas
Que o adornam são de moscas o receptáculo,
Suas músicas gentis são canções indecorosas,
A completar de seu fim o vil espetáculo.

Sobe de sua carcaça odor insalubre,
Ferindo as narinas de Vênus, sua madrasta;
Órfão, geme Eros, num pranto vazio e lúgubre,
E em lugar de Caronte a sombria canoa arrasta.

Seus ícones partiram-se; há muito está morto
Romeu, Julieta tem mastigada a face
Bela por mais belos vermes; Hamlet absorto
Imagina o falar da caveira -  se falasse.

Otelo amarga no Hades o sangue da pobre
Desdêmona; sobre sua sepultura, o pérfido
Iago deleita-se, e de mil risos a cobre,
Pois repudiou do Amor o toque férvido.

Que traz o Amor? Bem o sabe o tolo Werther,
Antes vendo-lhe somente as falsas virtudes;
Foi-se Charlotte e a vida, que se esvaiu como éter,
Num único tiro, fim das vicissitudes...

Portanto, seja olvidado o Amor e sua ferida
Purulenta, onde jantam vermes; pois para
Si nada restou, agora que a Morte é sua guarida,
E conservará indelével tumular escara.

Meus caros, não choreis mais o Amor, que mudo
Traz a própria destruição; antes choreis quem ama,
Pois terá finda toda a esperança, e verá que tudo
Se corrompe e é anátema, pedra, fogo e lama.
Cynthia França
Enviado por Cynthia França em 09/10/2007
Código do texto: T687623
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Sobre a autora
Cynthia França
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
7 textos (185 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/08/17 21:12)
Cynthia França