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Pedaços de Mim


Alma








Sorriso d’alma pura
Que encandece o ar pagão,
Que enlouquece mentes mórbidas
E estremece o chão.
Sou qual um homem apaixonado,
Dono do nada,
Senhor de lugar algum.
Mas vivo do sorriso puro
Da alma pura que me é comum.






























Perfume de Mulher




Olhei-te os olhos que mentiam e
Descobri a verdade que escondias,
Pois o que te pungia à alma
Refletia nos olhos de rainha.

O que te ardia à vida,
Ressurgia na insegurança de mulher.
Observei-te os modos e me pus a julgar-te,
Deparei, então, com o sofrimento que te aflorava a pele,
E a libido que te denunciava o sorriso.

Admirei a fêmea da plástica perfeita,
Encantei-me pela mulher cuja virtude é o defeito.

Eu te vi partir como por encanto,
A sumir nas estradas do lugar,
Deixando no ar o perfume de mulher























Residência








Dentro de mim mora uma alma
Que chora, ri e se acalma.
Mora o amor
Que em meu louvor me arrebata,
Sustenta e me acalanta.

Dentro de mim mora um poeta
Que às vezes desperta,
Às vezes procura em vão.

Dentro de mim mora um sonho,
Embora medonho, faz-se canção.

Dentro de mim mora uma semente,
A que se fez gente,
De quem se fez amor.






















Escravidão







Com as mãos sangrando
De um aborto inconseqüente,
Leva em frente todo esse sonho de vida,
Cuja sobrevida se fez presente.

E sem destino rema o barco ao infinito,
Seu sonho aflito não é atendido,
Seu grito não será ouvido,
E nem seu choro sentido.

A alma dilacerada, os sonhos frustrados,
Seu canto é lamento,
Seu lamento é passado,
Sua abolição é escravidão.





























Apocalipse









Andando pelas ruas não vi ninguém a minha frente,
Vi apenas rostos insignificantes de uma gente demente.
Vi carros loucos que por mim não têm amor,
Vi moças feias sem sorriso nos lábios,
Vi homens fortes e mudos.

Não vi crianças e nem cachorros
Para prestarem atenção em mim.

Vi asfalto e pedras frias
Que se confundem com a inércia dos humanos.

Toquei os rostos em vão,
Cantei versos em vão
E em vão, falei de amor.

Vi o sinal vermelho e
O humano automatizado,
Estático, esperava para seguir.

Vi no rosto de uma musa que
Sentada  num jardim, segurando uma rosa,
O brilho de uma lágrima.
Só então me dei conta que
O mundo não havia se acabado.








O sonho é Vida






Deixa-me cantar o verso que acho puro,
Acreditar que exista futuro,
Ser feliz à moda do que sinto,
Revelar a verdade, pois não minto.

Quero andar a treva,
No silêncio ser o poeta a compor e
Na escuridão que cega,
Cegar-me de amor.

Todavia, crer na luz vindoura.
A me clarear o rosto,
Não mais tropeçar no que não se vê,
Pois o que era treva, é o oposto.

Quero então a luz do dia,
Ver o sonho que outrora fiz poema,
Materializá-lo com alegria,
Adotá-lo como lema.

O mundo gira,
As horas passam
E o sonho é vida.
Cri quando o pretume se  impunha,
Incorporou-se em minha alma sofrida,
E se fez real o sonho que supunha.














Delírio







Eu te rio o riso fosco e sombrio.
Eu te canto o canto sem pensar.
Eu te olho os olhos dos desvalidos.
Eu te sinto o sentido de amar.

Vejo-te fêmea, cio e prazer,
Ainda menino o meu desejo de ser,
Ainda menina a sua vontade de  possuir.

Vi-te outrora,
Sonho-te agora
No riso que aflora,
Na dor que evola.

Sonho os sonhos que embora sonhados,
Supõe o que suponho da dor ao meu lado.

Lembro-te luz, teatro e mulher.
Inspiro-me em ti, pois não há.
Qualquer palavra que possa me dizer do amor.



















Os Versos que te Escrevi






Quando eu te escrevi os versos,
Pensei-te a me declamar,
Imaginei-te a sentir o amor que relato.
Quis me fazer amado.

Quando eu te escrevi os versos,
Olhei-te a candura,
Fiz-te pura no meu entender
E me perpetuei na escravidão.

Quando eu te escrevi os versos,
Todos os viventes se alegraram,
Pássaros pousaram em minha janela
E as flores, os seus perfumes exalaram.

Quando eu te escrevi os versos,
Quis ser, tão somente, feliz,
Acreditava transcrever
O amor que sentia.





















O Bêbedo






Numa noite eclipsada,
Onde a treva se fazia presente.
Na calçada os passos,
Sabia-se que vinha gente.

O rosto não se reconhecia,
O coração se ouvia bater,
A respiração o denunciava
E a sombra na luz fazia-lhe crescer.

As longas pernas cambaleavam,
O seu rumo era sem direção,
Via-se um homem que trazia algo na mão.

Ao poste de luz parou,
Sentou-se ao meio fio,
Naquela sarjeta imunda sussurrou
E gritou como  um animal no cio.

Trazia na mão um litro
Da mais intragável bebida.
Bebeu-a como a dor da partida
E deitou-se para sempre.

















Desejo do Poeta






Quero morrer sim e nunca vou negar,
Morrer por morrer não basta,
Quero morrer de amar.
Morrer como um poeta,
Morrer por sentir
E por gritar liberdade.
Quero morrer a qualquer idade,
Mas não abro mão da vaidade
De morrer com poesia.
A ela não temo,
E segundo o Chico,
“Morrer do meu próprio veneno”,
Sem dor física,
Sem sofrimento material.
Quero morrer afinal,
De um mal que vem da existência,
Do dom que Deus me deu.























De peito Aberto






Cada poema que faça,
Traço um pedaço de mim,
Digo com palavras e sem compromisso,
Que sou apenas isto.
Consigo fingir que sou feliz,
E assim tão bem o faço,
Que acabo acreditando no que o sonho diz.
Sou simples, tentando sofisticar o que escrevo,
Sou Deus sem ter medo,
Sou aquilo que acredito ser,
Sou a minha poesia.
Quando quero ser à noite, anoiteço,
Quando quero ser o dia, faço poemas,
Mas entristece-me o por do sol.


























Fim do Mundo






Hoje, quando acordei,
O mundo estava deserto,
Meus olhos avermelhados
Viam um horizonte vazio
E minhas narinas não sentiam o cheiro da poesia.

Hoje, ao despertar,
Percebi que o mundo se resumia a mim.
Eu como um rei do nada.

Hoje, vi-me só,
Bem mais que nos outros dias.
Tentei falar,
Mas ninguém me ouvia.
Tentei sorrir,
Foi-se a alegria.

Hoje, percebi que não havia vida,
Já não havia mais com o que sonhar.





















Sonhos de um Palhaço






Apagam-se as luzes do palco,
Fecham-se as cortinas,
O espetáculo acabou...
Talvez a vida tenha se acabado,
Quem sabe o amor!

Apagam-se os sonhos da alma,
O silêncio impera na escuridão,
O que outrora era festa.
Hoje é vazio.

Na negritude do ambiente,
O brilho que corre na vertical.
Uma luz focaliza o brilhante que cai
E de um rosto amargurado,
Vêem-se pinturas, tristeza e dor.
























Alma de Poeta





Minh’alma de poeta dói
Quando não se pode cantar,
Alma inquieta sem cantarolar.

Minh’alma desperta
Ao som da voz que encanta,
Que aos ventos lança,
Que ao mar repousa.

Minh’alma pensativa chora,
Afoga-se na tristeza
Quando não avista a beleza
De outro coração que ama.

Minh’alma impaciente perdoa
Sempre quando a outra voa e não a chama.

























O Grande Poeta







O grande poeta escreveu um verso
E falava de amor.
O grande poeta fez a vida
E fazia o amor.
O grande poeta criou as águas
E transbordava de amor.
O grande poeta proclamou a paz
E era plácido de amor.
O grande poeta compôs a música
E cantava de amor.
O grande poeta criou o mundo
E amava, e era Deus e era o amor.



























Paixões Faladas.






Falo das paixões,
Dessas arrebatadoras
Que nos leva a tentar suicídio nos bares,
Que nos leva o ego.

Falo das paixões,
Dessas alucinantes
Que nos venda os olhos,
Que nos tira a razão,
Que nos palpita o coração.

Falo das paixões,
Dessas platônicas
Que nos tira o alimento,
Que nos nega o tempo,
Que nos falta à respiração.

Falo das paixões,
Dessas masoquistas
Que nos trás o sonho,
Tira-nos o sono,
Leva-nos a juventude,
E ainda assim, falo das paixões.

















Candelária






A luz se esconde e treva se faz,
Do alto as pequenas luzes que reinam.
Foi-se então o colorido,
Ficou a negritude a qual
Reina em tudo o que não se vê.
As estradas falam com as suas vozes mecânicas
E vêem com os seus olhos de luzes
A se deslocarem sem rumo.
Só se enxerga a dor.
A treva é impávida
E o cansaço vence a vigília,
O silêncio cumplicia a inocência,
E o frio, de repente, presencia o terror.
Sob a mira das mãos que julgam
Estão bocas entre abertas
E olhos esbugalhados.
Sumariamente impiedosas
Decidem ao seu bel prazer.
A noite quebra o silêncio
E a praça deixa de viver.




















O despertar do poeta






Poeta acorda desse sono eterno,
Não vista o terno talhado por marceneiro,
Acorda na primeira hora,
Não deixa o sono ser derradeiro.
Acorda que a vida te espera,
Esperam-te, também, os versos...
Que te são verdadeiros.
Acorda e levanta da cova
Que a vida é tão nova,
Mas é sempre certeira.
Acorda e desperta do sono,
Projeta o teu corpo
E busca ser feliz.
Acorda que morto
O amor não te diz.

























Morte Aparente





O poeta acordou da catalepsia,
Não morrera, dormia,
Despertou para a vida
Que pensava perdida.
Abriu os braços para o mundo
E foi Feliz num segundo.
Compôs e se fez tema,
Entristeceu-se e fez poema.
Sorriu seu sorriso doce
E cantou como se fosse
Acotovia do britânico poeta.
A vigília que lhe afeta,
 Faz-lhe apagar o sorriso de novo.
Era apenas um homem do povo,
Um trabalhador,
Mas com alma de sonhador.

























Dor





Impiedosa dor que me persegue,
Que lateja em minha alma,
No afã de torturar-me
Submete-me ao teu julgo,
Arrastando ao teu destino.

Impiedosa dor que me consome
E que me veda os olhos
Com intuito de cegar-me.
Levando-me por entre tuas entranhas,
Velejando em teus mares bravios.

Impiedosa dor que me assola
E que me deixa bambo
Com a certeza que me dominas
E me conduz por tuas tristes rimas,
Fazendo-me dependente dos teus desejos.

Impiedosa dor que me embala
E que me engana, fazendo-me arder.
Com a vontade que tens de maltratar-me,
Empurra-me de encontro a almas frias
E se compraz em me ver doer.


















Dizendo-se







O poeta está cego de tanto amor que sente,
Mente ao se enganar presente,
Vê-se enamorado. Demente.

O poeta está louco de tanta dor pungente,
Gente imagina-se triste,
Inexiste na lente do mundo que o vê.

O poeta está bêbedo de tanta aguardente,
Sente-se cambalear as pernas
Na eterna afeição ausente.

O poeta está morto de tanta lágrima vertente,
Salientes, seus olhos avermelhados,
Mostram o lado que segreda estar-se só.
























Versos Tristes.





Dizem serem tristes os meus versos,
Como posso alegrá-los,
Se falo do mundo que aí existe?
Há torpeza em todos os cantos do planeta.
A beleza é efêmera e quase inexiste,
Certeza só tenho dos momentos lúgubres.
Como podem os meus versos serem contentes?

Meus olhos vêem o terror da guerra,
Meus ouvidos auditam o som do pavor,
Meus lábios degustam o gosto do fel
E minhas narinas o cheiro fétito da dor.

Caminho por sobre o sofrimento humano,
Piso em corpos que o egoísmo abateu,
Ignotos perfilam o solo frio,
Voltando ao pó como alguém já escreveu.

Negras nuvens poluem o céu em pleno dia
E a alegria que um dia aconteceu,
Faz-me tudo isto provar da zurrapa
Que um dia foi vinho bom,
Mas o homem não bebeu.


















Tempo de Silêncio






Havia um sonho, uma música e uma poesia.
Eram cores e luzes, era dia.
Havia quintais com árvores d’onde frutos caiam
E mãos que pediam.
Era um tempo sem voz,
Sem rostos, só correria.
Havia sons que não se ouviam,
Mãos que ardiam
E corpos que doíam.

Era tudo um vazio onde nada se via.
Ninguém o conhecia.
Um corpo baixava a terra,
Ninguém o conhecia.

Eram mães que sofriam
E lágrimas que corriam.

Havia um tempo que se sofria,
A provar dos venenos
Da taça que erguia
Servida pelo supremo
Que se dizia guia.

















Ainda é Cedo





Ainda é cedo para que me mandes embora,
Meu ciúme ainda não te incomodou,
O meu sono ainda é tranqüilo
E a minha vida ainda divido contigo.

Não nos flagramos a taquicardiar por outrem.
Molhamos as mãos na ânsia de amar,
Por isso não quero partir agora,
Tenho muito que te beijar.

Não posso me perder no mundo,
A orfandade me consumirá a alma.
Sentirei saudade da cama que idolatrei
E meu espírito vagueará sem rumo.

Sem que apele para o rastejamento,
Imploro que me deixe ficar.
Eu não quero conhecer a vida.























Supérfluos.






A folha morta é a vida que se transforma
E que em ciclos se renova.
Morrem as formas,
Sobrevive a essência,
Morre a beleza,
Perpetua-se a decência.

Os corpos morrem inertes e imersos na podridão.
Putrefam-se os orgulhos,
Sobrevive a doação.
Sepultam as paixões,
Sobrevive a canção.
Enterram-se as dores,
Sobrevive a ação.

As almas sobrevivem à morte aparente
Enquanto morre o vil metal,
Para os túmulos vão os olhos azuis e as lentes,
Os corpos disputados e os dentes,
Mas sobrevive o que foi sonhado.




















Mera Atriz.






É atriz, pois finge prazer, a dor que sente,
Finge viver, mente!

Mera atriz,
Finge ser profundo o sentimento,
Mas acha imundo o momento,
Que no fundo é lamento,
E quer da vida um ungüento.

Mera atriz,
Da interpretação fácil,
Da vida infeliz,
Simples e mulher, atriz!

Mera atriz,
Cujo sonho de ser real,
Não passa de utopia,
O mal é o seu dia,
A sombra sua moradia.

Mera atriz,
De um palco triste
Cujo silêncio e a penumbra
Dispensam o público.
E a cada posição
Uma cena de horror.















Caminho da Paixão



Quando perderes a emoção,
Perderás também o sentido.
Sem rumo e sem estrada,
Perderás o tudo e o nada.

Quando achares a razão,
Acharás um mundo insípido,
Pois o gosto prático te será o sentido
E sem ouvidos para inspiração,
Pensarás ser o tudo,
Mas és o não.

Quando achares o caminho da paixão
Aí, então, terás achado o caminho,
E mesmo sozinho, acharás o tudo.
































Canto da Manhã






Meu canto, embora rouco,
Traduz um pouco da aventura de viver.
Sabendo que morrendo a cada entardecer
O sol nasce na manhã seguinte,
Queria sê-lo para a cada manhã renascer
E ser o agora.
Adormecer para o sofrimento,
Despertar para o momento,
Ignorar a treva que cega à noite
E ser a luz que faz a vida e clareia a trilha.
Amanhecer para que os pássaros cantem
E aquecer o que o orvalho da madrugada umideceu.




























Aparência






O mundo é a aparência dos olhos que vêem,
Há olhos que se voltam à profundidade
E enxergam do lixo a riqueza da poesia.

A alma humana revela o que a boca não diz,
O que o corpo não veste,
O que o bolso não trás...

A poesia é o magma que aflora do vulcão.
Revela na subjetividade o objetivo de viver,
E a vida são ações do cotidiano.

Amar-se é importante,
Pois se é único no mundo,
Na grande aldeia.

A luz que nos clareia a essência,
Clareia-nos o caminho.






















Amando






A noite é tua e tudo que a compreende,
As estrelas, o frio e o enigmático.
Mistério de sua negritude.
O teu rosto esconde à noite
Os teus sentimentos.
No teu corpo há tanto mistério quanto,
Pois que te escondes num manto de santa.

A minha noite é tua e todo o meu sonho,
Pois que só encontra razão em tua vida.
Vejo além do rosto que a noite encobre,
Além do manto que te cobre às verdades
Vejo-te a consciência.

A noite é nossa e todo o seu encanto,
Pois que o teu rosto me é revelado
E no corpo despido da indumentária
Vejo a mulher.






















Face Oculta






Ouvir-me a voz ou,
Ver-me o rosto
Não te diz quem sou.
Eu não moro numa casa,
Vivo no mundo.
Não paquero,
Amo a uma somente.
Tocar-me a pele
Não te faz me sentir,
A minha pele acoberta,
O meu olhar é o instrumento e
O meu sorriso esconde, por vezes,
Uma existência que velada
Nega a minha maneira de viver.


























Mundo Prático






Desenhos fumegantes rasgam o céu,
Impassivo, o homem a tudo assiste.
Como se fora normal o mundo que aí existe.

Contemplando a vida de seus apartamentos,
Enquanto o mundo se bombardeia,
Assiste a morte na calçada,
Dizendo que a vida não vale nada.

Os carros voam na avenida expressa,
Acham que a vida tem pressa
E não vêem ao lado a dor que se anuncia,
A dor de todo o dia.

Os pés caminham sem rumo pela cidade,
Olhos paralelos à rua
Não enxergam as mãos que clamam atenção,
Mas cada problema de cada um,
É tão importante,
Que não há sequer um instante
Para olharmos para o lado.



















Feridas em Silêncio






A sua baioneta me fere,
A sua burrice também.
Ferem os olhos tristes
Das tristes mães que deságuam de saudades.

As suas mãos me ferem
E as sujeiras que elas trazem também,
Ferem rostos de traços marcantes
Talhados pelo tempo.

A sua palavra me fere,
A sua pobreza também.
Fere meus ouvidos com rudeza
E nada diz, além de besteiras.

O seu egoísmo me fere,
Fere-nos a todos.
E as feridas que causou
Levou-nos a um tempo de silêncio.





















Lembrança do Horror






Sangue vertido
Lágrima cadente,
Corpo inerte e
Ranger de dentes.
Olhos revirados,
Mãos espalmadas,
Corpo empacotado
Numa vala jogada.
Mães que choram a ausência,
Olhos que refletem a dor,
Dor que teima a permanência
Na lembrança do horror.




























Pai






Dizer-te, agora, que te amo.
Pode ser em vão.
Chamar-te não ousaria,
Tu moras em outro chão.

Chorar a tua ausência
Ou te pedir perdão,
Pode trazer a minha presença
Aquele coração.

Esse mesmo que um dia te traiu,
E te levou a viajar,
Deixando-me inerte
Sem nada fazer,
Impotente para agir.

























Renascer







Olá menino!
Onde tu tens te escondido que
Há tempo, não te ouço falar de amor?
Há tempo, não ouço a música da tua poesia.
Onde estão os teus sonhos,
A tua esperança,
A tua fantasia?
Não venhas me dizer que perdeste o sofrimento!
Não venhas me dizer que perdeste o abstrato...
Renasça, pois teu mundo está em ti,
Tua vida está no mundo e
Tua poesia na eternidade.






















A Volta do Exílio






Ponha os teus pés no chão, menino!
Pisa nesta lama que é o teu chão,
Banha-te no riacho d’onde tiras a tua energia,
Caminha  sobre as pedras,
Deixa-nas te castigar os pés.

Canta a tua canção, menino!
Como quem volta do exílio distante,
Corra por entre o mato do teu chão e
Deixa o sal do teu suor
Banhar-te o rosto e arder-te os olhos.
Voa com os pássaros que
Certamente hão de reconhecer-te e
Vão querer buscar em ti a pureza de outrora.
Liberte a tua alma nesta terra,
Como quem com saudade retorna
Numa busca pela justiça.



















Liberdade



Livres são os homens que sonham,
São as flores que encantam,
Os pássaros que cantam.

Livres são as bocas que sorriem,
Como livres são os olhos que choram.
A liberdade é o momento de partir,
É passar pela história
É ser a história.

Livres são as mãos que aplaudem,
Os olhos que admiram,
Os pés que vagueiam,
O ar que se respira.

Livres são os carros na estrada,
A moça na janela,
A menina na calçada, bela!

Livres são os corpos torturados,
Presos, mas, pensamentos libertados.

Livres são as verdades que a voz entoa,
São as pessoas
É o pensamento.


Livre é o mar,
O sol, o olhar e
Peixe no anzol.

Livres são os que têm um ideal,
Livre é o bem e não o mal,
É a menina que faz versos
E sonha ser feliz,
É o poeta que canta o universo
E assim o diz
Livres são as bandeiras que tremulam
À busca da paz
Livre é o amor, e nada mais






.

Amigos





Amigos, a cada esquina tem um a sorrir,
Em cada bar, entre copos e risadas.
Amigos, há em cada estrada,
São vizinhos falantes,
São amantes.
Amigos são como gotas de chuva,
Sempre caem na gente.
Amigos se encontram quando se quer,
Amigo até se compra,
Compra-se até mulher.
Amigo é sempre contente
E nos faz sorrir delirantes,
Mas se descordam da gente,
Já não nos acha elegantes,
Nem mesmo inteligentes,
Já nos somos os mesmos de antes,
Ao nos ver, já não ficam contentes.























Saindo de cena





A vida desenhou-lhe uma estrada
E a trilhá-la, pôs-se então.
Veloz se fez seu sonho,
Supôs-se voar.
E voou...

Os seus olhos contemplam a paisagem,
E a estrada mágica
Na ânsia de ser feliz,
E foi...

Os seus pés imprimiam o rítimo
Que a suavemente ordenava
E o vento rasgava
Na esperança de chegar,
E chegou...

A sua alma inquieta evola,
O seu desejo impera,
E na chegada, onde todos o esperam,
Ele não chegou...

Assim, saindo de cena,
Assim, outra estrada trilhou,
E no escuro que ainda lhe acena,
O sonho acabou...















O Passageiro da Agonia






A dor é profunda
Que te entorpecem a aliviar essa
Que é a maior dor do mundo.
Sofres nessa hora,
E Deus quem é?
Desconheces o amor,
Seria melhor dizer que amas a morfina.

Sentes próximo o fim,
Por vezes, parece-te tardio.
A agonia aumenta...
Tu não agüentas,
Tu não suportas.
Ao teu lado vês apenas o leito branco.

Porque choras?
O mundo não te foi ruim!
Tu viveste, a tua hora chegou.
Aquele homem de branco é o teu Deus.

É cansativa essa cama,
Aquele mundo lá fora é melhor.
Não ligues, tudo vai acabar...

Pobre ser humano, a dor novamente,
Mas Deus está presente e
Não consegue aliviá-la.
O Deus não falhou, o Deus de branco.
Lutou, mas a dor venceu.

A viagem acabou,
Podes desembarcar passageiro,
Desembarques dessa agonia.







Retrato do Meu mundo






Da minha janela o mundo parece insignificante,
O carro que passa no beco
E muita gente falante.
A fumaça de uma fogueira,
A vizinha fofoqueira,
De vez em quando, na rua, uma menina,
Elegante cintura fina,
Ou um casal de amantes.

Da minha janela o mundo parece pequeno,
O capim crescendo,
Os meninos correndo e
A vizinha no muro
Que a tudo vê no escuro
E conta aos ventos.

Da minha janela o mundo é uma província,
As meninas da escola,
O mendigo da esmola,
O cão que ladra sem morder.
Da minha janela o mundo se isola,
E eu vejo a vida crescer.


















Sem Terras






Eu vim de outras terras,
Onde gente é fera,
Onde feras passam fome,
Vem de terras, onde feras se come,
Onde terra é fome.

Eu vim de outras terras,
Onde feras são homens,
Onde homens têm terras,
E os sem terras têm fome.

Eu vim de outras terras,
Onde as serram limitam
As terras dos homens
E que no horizonte encerra
A fome que berra.

Eu vim de outras terras,
De terras alheias
Que ajudei a plantar,
Que ajudei a colher,
Mas A mim tocou-me na ceia,
Os pés na areia,
A mão calejada de terra, de enxada,
O olho molhado,
A fome ao meu lado,
Companheira danada.













Fração do Todo






Somos uma fração do todo e
Todo amor que supomos.
Somos quase nada, só amamos.
Somo a madrugada, a estrada onde passamos.

Somos os olhos tristes que lacrimejam,
A boca molhada que ninguém beija,
O poço fundo, onde se vai morrer.
Somos o renascer.

Somos criaturas tão somente,
Limitados e descontentes,
Os versos da canção.
Somos o rítimo do coração.

Somos a alegria de se poder amar,
O dia-a –dia  de se gostar,
Poetas, versos e emoção.
Somos do universo, a fração.






















Metamorfose do poeta.





O poeta calou-se um dia,
Cansado de sofrer, tentou ser feliz,
Qual ironia! Poeta deixou de ser.
Da dor vem à canção,
O sofrer lhe desperta,
Faz-lhe o espírito são.

O poeta tentou sorrir,
Que fantasia! Seu sorriso é poesia.

O poeta em vão tentou se modificar,
Não lhe fora possível,
Ser poeta é destino.



























Modo de Amar






O meu amor tem um jeito assim meio triste,
Como quem chora na noite.
O meu amor tem um jeito assim meio humano,
Como quem sonha seu sono.
O meu amor tem um jeito assim meio louco,
Que a si mesmo sufoca,
E me mata aos poucos.
O meu amor tem um jeito assim meio estranho,
Que me dói na alma,
Mas que não é sofrer, suponho!































Meninos de Rua






Meninos de rua,
Almas nuas, pés no chão,
Mentes cruas.
Desnudos no entender,
No saber e na vida sua.
Desabitam a Sé, à Candelária e todas as ruas.

Meninos de rua,
Almas de fé eclipsadas
Que a Deus não vê,
Pois as portas estão fechadas
A protegerem o ouro que a história colecionou.

Meninos de rua,
Rostos que assustam,
Ar de malandros,
Sequer sabem porquê vivem,
Sequer sabem matar a morte que se aproxima.






















Folia de Reis






Era quase dia
E o bumbo tocado se ouvia,
No escuro luzia o palhaço colorido,
O canto era quase oração.
Na mão a bandeira,
E o bumbo tocado era mais forte.
Eram homens velhos de frágeis portes,
Cumpridores da missão,
E os lares tornarem sãos.
A música era clara, agora,
O dia não!
Ao adentrar a casa,
Com seu dono ajoelhado ao chão,
Recebendo a bandeira,
Como fizera ávida inteira,
Confirmando a tradição.
























Busca






Busca-me perdido, pois
Achar-me não consigo,
E procurar-me é cansativo.

Busca-me perdido, pois
O poeta de encantos
Encontra-se em meu espírito
Que de belo,
Objetiva a minha existência.

Busca-me perdido,
Humano.

Encontra-me na razão dos sonhos,
Venha-me a sentir no sensível toque dos dedos.

Busca-me perdido a rogar,
Pois acho-me no lacrimejar,
Poesia que cai dos meus olhos.





















Tristeza






Tristes são as noites de frio
Em que impera o silêncio,
Tristes é não ouvir sussurros
E não sentir o toque,
Triste é estar numa estrada
Onde o vento da liberdade
Sopra em seu rosto, mas se é único.
Triste é uma mesa de bar
Com garrafas e um copo solitário.
Triste é viver sem esperanças
E não ter como lutar.
Triste é estar perpetuado em uma condição,
É ter a vida, realizar todas a funções vitais,
E não se estar vivo.


























Mundo Louco







Os ventos sopram em nossos ouvidos,
Pisamos em buracos no chão,
Um louco anda de bicicleta,
Um menino usa a mão,
Uma mulher pari na calçada,
Uma buzina anuncia o fim do mundo.
Há um morto no escuro,
E as botinas destroem as flores,
Os canhões desenham artes no céu
E tocam a sinfonia da destruição.
Um homem assina a lei,
Um homem burla a lei
Uma nave desce do espaço
E não acredita no que vê.

























Negro






Do tronco à escravidão
E os calos permaneceram.
Os lanhados dos açoites,
São troféus de quem sobreviveu.
Os pés no chão, cortados pela vida,
São o testemunho do destino.
As mutilações e os horrores,
São chacinas esquecidas pela história.
A condenação “eterna”,
É o estigma que marca a pigmentação.
Os olhos negros,
Os cabelos carapinhas e
A pele da cor da força,
São as belezas de uma raça.


























Minha alma







Minha alma encantada chora
E que implora voltar a viver,
Mas não se evola a dor de outrora
Que nada encanece o meu ser.

Alma que ri, mas sempre chora
E que se demora na emoção do saber,
Que é triste na vida onde mora,
Que inexiste o olhar que não querem ver.

Espera um dia juntar-se ao que separou,
Entoar a voz num canto sem fronteiras
E poder sorrir o canto de quem vive,
Em dizer feliz e assim serei da vida que tive.

























O Artista do Campo






Elegantes pernas, como uma garça a bailar,
Realizando artes, fazendo dribles.
São pernas negras e brancas que
Que não discriminam e não são discriminadas,
São apenas ídolos.

Os zigue-zagues de um drible contra o tempo
Faz de ti o sonho de uma multidão.
Leva para um lado,
Trás para o outro,
Mas o que é importante é satisfazer,
E que prazer!

A elegância talvez não seja nada
Diante da poesia realizada em cada lance,
Tudo talvez seja um ato de amor.
O artista delira, baila, ziguizagueia e
Compõe um lindo poema.






















Revelando-me






Quem me quer saber,
Adentra a minha alma
E me encontrará
.
Pois resido nesta moradia, cuja construção dispensa paredes
De madeira, pau-a-pique ou alvenaria.

Se quiser saber de mim,
Procura-me num bar,
No balcão de um botequim,
A beber e a cantar.

Quando de mim tiver curiosidade,
Abra um livro antigo
Pois a idade não afeta,
E assim saberá de quando digo,
Sou poeta.
Deixa-me sentir a dor como ela vier,
Pois ela é minha e não é uma dor qualquer,
Deixa-me chorar meu desencanto
Enquanto o tempo passa.
















Naquele dia



Foi naquele dia
Que te perdi
Na estação
Que eu morri

Quando o teu adeus
Fez-me sofrer
e os olhos teus
ter que esquecer

Foi naquele dia
Que te perdi
Na esquina de uma rua
Que eu sucumbi

Te vi partindo
E as costas para mim virar
Matando a minha dignidade
E vontade de voltar

Foi naquele dia
Que te perdi
E perdi a vida,
A alegria e
Um grande amor.


















Amor Prometido






Receba as flores que guardei
E que nunca te entreguei
Receba o beijo que frustrei
E que deixou a boca molhada
Receba a mão que recolhi
E que ainda está suada
Receba o amor que te prometi
E que me entrega, me frustra e me sua a alma.




























Lembranças



Amo a uma alma, pois
O rosto já não me lembro,
O corpo, há muito não toco e
A voz não musica os meus ouvidos.

Há muito o seu sorriso não me encanta,
A sua alegria não me acalanta e
O seu amor não me sustenta.

Amo a uma alma que
Embora distante,
Pulsa no meu pensamento e
Que é balsamo e sofrimento,
É tormento.





























O Beijo da minha Vida



Dei-te o beijo da minha vida,
O beijo que ainda umedece a minha boca
E que o gosto insiste em permanecer

Dei-te o beijo da tua vida,
E ainda que outra boca tenha beijado
Permanece o gosto do prazer

Demos o beijo de nossas vidas,
E nenhuma boca que beijarmos,
A mesma sensação vai nos trazer

































Beto Amaral
Enviado por Beto Amaral em 13/10/2007
Código do texto: T692169

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Sobre o autor
Beto Amaral
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
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