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Homenagem a Adriano


                      Homenagem a Adriano





Oiço Piaf e deliro
Em Abril de oitenta e sete
Padam Padam Padam
Faz-me sentir desconcertado
Porque na minha pele de galo malfadado
A vaga lembrança de uma cultura decadente
Dá-me a força de vontade
De remar contra a corrente.

Sempre fui assim
Face bem levantada
Enfrentando o turbilhão de chofre
Passo a passo,
De desgraça em benesse,
No Maio amargamente florido
Mas em que o amor de Adriano Correia,
Piaf, Brel, Afonso ou Oliveira
É mais forte que a tortura
A dor, a morte ou a loucura.

Sempre tentei oferecer o melhor de mim
Embora meu microcosmo seja controverso
Desfolho e espraio o meu mais secreto jogo
Pelo azarado tapete verde
Do mais afamado casino europeu
Onde se arruínam fortunas efémeras
E cimentam impérios pueris.

Sempre fui a essência mirrada
De um deus menor.
Nas minhas veias as águas não lavam mágoas.
Eu e o meu egoísmo natural
Eu e a face exposta à bofetada
Eu e a senda nebulosa da acomodação pessoal
Eu e a difícil e incerta peleja,
Utópica conquista pelo espaço ao sol
No depravado Status Quo
Da estereotipada escala merdo-valorativa social.

Eu e a minha pobre riqueza mental.
O mundo moldou-me à mesquinha forma
Da anacrónica metáfora da civilização.
Maio de 68 não pertence mais
Aos meus tímidos argumentos filosóficos
Face à estandardizada tecla,
Possessa de mágicas maravilhas
Muito discretamente concentradas
Em minúsculos circuitos poderosamente integrados.

Eu e o meu melancólico abespinhar
Perante o inusitado molho de rosas
Aviltadamente artificiais
Misto de profano e grosseria,
Desencanto amargo,
Prazer castrado,
Míngua de doçura e poesia.

Eu e o meu controverso comportamento.
Eu poeta menor na prática e na obra.
Dejecto ambíguo, nulo, por vezes emocional.
Eu e só eu, no entanto,
Sou a palavra do meu verbo.

Jorra de mim o vício doloroso
De me entregar inteira e brutalmente
Ao cadenciado bater dos ponteiros do relógio.
O meu espaço é a minha prestação à vida.
Do meu tempo vou fazendo a obra
Da qual me julgo ser capaz.
É a violenta tempestade do meu instinto animal
Que faz do meu âmago
Um corrupio raivosamente buliçoso.
Ser-me-ia talvez possível aceitar o dia sombrio e triste
Como uma banal desgraça pontual
Acaso não desbravasse em cada gota de chuva
Uma minúscula enciclopédia
Revelando maravilhosos segredos naturais.

Eu sou a minha madrugada.
O meu dia cinzento é à medida das minhas loucas ilusões.
Haja sol no meu espírito!

HAJA VONTADE E FORÇA!

Eu sou o meu dia soalheiro e risonho
Eu sou, apesar da minha inconstante segurança,
O engenho refinado e apto
A laborar sem sobressaltos nem falhas.

DO MEU TEMPO VOU FAZENDO O MEU ESPAÇO

Ouvi Piaf, Brel, Patxi,
Ouvi Oliveira
E ouvi-me a mim mesmo
Pois eu, e só eu, sou a palavra do meu verbo.



Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 30/09/2006
Código do texto: T253221

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