Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Escravos resgatados de um navio negreiro por um vaso de guerra britânico
Johann Moritz Rugendas





Consciência...


Abro a cancela da mente de minha senzala
Voejo aos escombros que de mim fizeram
Dormitar no viver que hoje se faz sentinela...
Reencontro dolentes os que nela adentraram.

Ao ranger dos dormentes nos gonzos do peito
Somado ao pranto das almas negras vagantes
Que perambulam ainda hoje a clamar o direito
Por ter sido acorrentado aos troncos gritantes.

E na imensidão demarcada por murmúrios
Ouço o lamento de meus irmãos indefesos
Na escuridão dum olhar ao farejar os martírios
Dos escravocratas desta nação que seguem ilesos!

A cada tronco que encontro na memória revivo
O negreiro aportando descarregando meus genes
Sinto lanhar a chibata na pele escura e reflito
Piso escutando gemido o verter das progênies.

Nas labaredas que danço vou  festejando os santos
Eu cravo o olhar no sentir as argolas que degolam
Inda hoje! Meu povo chora lamentando nos cantos
Na quartinha d' angola nos guetos ,ao luar imploram.

Traz o poema a sede duma liberdade que é mentirosa
Nos lábios a fome dos quilombolas vingando o tronco,
De pés descalço danço na fogueira do ontem ardilosa
Fincando a poesia como nos tempos que outrora conto.

Conclamo um passado que não foi instinto, há sinais!
Não silencia no tempo que passa, diz o corpo que não
A voz enrouquecida no pueril da imaginação pelos ais
Da crueldade dos açoites que de longe ouço no porão...

Que ora clareia no fume do lampião, ora revela a vela
Que acendo na intenção dos tantos escravos da nação!
Dum povo iludido... Arrastam índios e negros pra vala
Na insanidade dos que tem o poder de libertar o irmão!

Que ressoe esse canto, e que rufem o que a mim destina,
Sejam ouvidas, as negras que versam por não ver sentido,
Manchar esse chão com tamanha demência que arruína
Os seres na ganância pelo ter, e que descriminam é doido!


“A Poetisa dos Ventos”
Deth Haak
21/10/2006




Leitura recomendada:
"COMPACTUO "
--------------------------------------------------------------------------------













Deth Haak
Enviado por Deth Haak em 19/11/2006
Reeditado em 19/11/2006
Código do texto: T295509
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Deth Haak
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 57 anos
547 textos (65360 leituras)
50 áudios (9718 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 14:29)
Deth Haak