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POESIA PRECISA COMO O BEM

SERIA ÁGUA

Se eu fosse algo seria água,
pra molhar a mata,
pra dar de beber,
pra favorecer a vida.

Se eu fosse bom seria rio,
pra correr vadio,
pra ser fértil,
pra beneficiar tudo à volta.

Seu eu fosse deus,
desceria chuva,
pra me doar inteiro,
pra fartar a todos.

Se eu fosse gente,
seguiria o rio, doaria vida,
desceria fundo,
beberia na fonte,
buscaria a paz.

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PALAVRA LIVRO
 
Lido com palavras todo dia.
Meu ofício: carpinteiro de idéias,
joalheiro de pedras raras.
Lapido e realço brilhos.

Lido com palavras de pontas,
não raro me firo
e desvairo em sangue,
mas sigo e insisto.

Lido com palavras brutas.
Palavra pedra.
Palavra gente.
Palavra peixe.

Às vezes mergulho,
palavras que me fogem.
Busco no fundo escuro
da palavra rio
a palavra brio.

Ofício solitário.
Desgasto-me,
mas me abasteço
na palavra vida,
na palavra trabalho.
Na palavra gente
sustento-me.

Objetivo, me concentro
e prendo tudo
na palavra livro.

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O NADA

Antes de existir tudo
havia o nada,
mas o nada ainda existe,
apesar do tudo.

O nada não é visível,
por isso ninguém o nota,
mas coexiste com tudo.

O nada só se ausenta
quando tudo virá caos.
Aí o nada sucumbi
e o tudo vira nada.

O nada é ausência,
o que dá base à existência.
Para tudo existir
é preciso começar do nada.

Aprisionar o nada
é tudo o que homem quer,
para tanto constrói
casa, pote, vasilha...

E quando isso executa
nota que o nada
é tudo o que precisa
para o que fez ser útil.

Ou para que valeria
casa, pote, vasilha...
Se não fosse o nada
aprisionado entre paredes.

O nada é a base de tudo,
é o que dá possibilidade,
é o que torna tudo útil.

Mas o nada se torna raro,
já que o homem quer
tudo ocupar ou construir.

O certo talvez seria:
preservar o nada,
dar possibilidade,
desocupar,
desobstruir a paisagem.

Ou, se nada disso for possível,
construir sem poluir,
fabricar sem destruir o ar.

Pois o ar poluído
é fatal pra acabar com o nada.
O ar puro é onde o nada
tem guarida,
quando tudo lhe toma o lugar.

Você não entendeu nada?
Então você está repleto de tudo.

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INTERESSA-ME SIMPLICIDADE

Quase sempre me interessam verdades,
poesias e outras sonoridades,
matérias densas, vidas toscas.

As vezes me interessam superficialidades,
matéria rala:
A mosca que pousa com os pés na superfície da água,
mas faz milagre como se fosse Jesus.
 
Por fim me interessa simplicidade, a base,
e me ponho a observar pássaros, flores e gente
e, num ímpeto, os capturo como um mágico,
mas logo liberto tudo com a palavra verso.

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LAO TSÉ

O velho militante da sabedoria,
tinha princípios e um filosofia,
preceitos primeiros do homem de bem:
Guardar cortesia indistintamente
Manter-se livre interiormente
Não confiar em demasia em nada, em ninguém.

Sem diplomas, pompas e regalias
sabia que a vida não se insere em livros, mas na memória,
arquivo vivo coletivo
das glórias, lendas e da história humana,
essências das lidas da vida.

Consciência acesa que ilumina o futuro
ele sabia que verdades
são fendas aberta no tempo,
indestrutíveis, indissolúveis...
 
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DOANDO-ME

Vou andando e me doando.
Ao final não quero sobras.
Nada.
Não quero mágoa,
máculas na alma,
nódoa na roupa.
Limpidez, transparência. Lucidez é a meta

Não quero voltar  pra consertar,
botar acento,
circunflexo,
revisar a gramática,
desentortar linhas incertas,
aprumar o pêndulo
acertar o relógio.
O tempo é só um vento ligeiro. Passageiro.

Vou indo sem máculas.
Minhas marcas são leves,
como passos de criança na areia.
Pecados não aderem à minha’alma
eles se esvaem pelo ralo. São nada.

Não quero deixar carma,
ter que voltar
pra fazer remendos,
calar ais e curar cortes abertos.
Vou deixar tudo quitado:
dívidas poucas
e zerada as dúvidas.
Paz é herança e legado.

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FLOR DE OURO

Da monotonia da eternidade
os deuses brincam conosco,
ditando seus versos cifrados
para os profetas tomados
que os lavram em pergaminhos.

Dos céus jorram palavras divinas
que pousam diretas
nas bocas sábias que encarnam
com a força primal do verbo
e nos ensina doutrinas sagradas

São forças que encarnaram
na Palestina, na Índia
e na antiga China
e todas igualmente deixaram
as mesmas verdades
de amor, simplicidade e bondade.

Lições de lucidez extrema
que nos ensinam
serem as transformações,
advindas do coração.
Se esconde no peito pulsante,
o ser original vivo em nós.

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DESTAQUES

Destaco o sorriso como um bom dom,
mesmo quem sofre o possui
e o distribui direto da alma
a quem passa e a quem fica.

Na vida a vida é o que importa.
Certa ou torta ela não se retém.

Destaco a coragem dos sem-terra,
que constroem esperança Brasil afora.
Fazem na prática o que a política lhes nega
e joga sementes novas no fim do século.

Na vida a vida é o que importa.
Certa ou torta só a morte a detém.

Destaco a música como mensageira,
pois transporta e traduz sentimentos,
mesmo aquela sem rima
feita de improviso e fora do tom.

Na vida a vida é o que importa.
Certa ou torta ela sempre mostra a que vem.

Destaco a alegria, por menor que seja,
ela sempre brilha e diz não ao breu.
Ela traz brilho aos olhos
riso às bocas. É uma chama....

Na vida a vida é o que importa.
Certa ou torta sempre busca alguém.


26/08/99

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DEIXA ROLAR

Deixa rolar o ímpeto retido,
os sons tortos.
Deixa o novo correr
como água de boa fonte.

Deixe rolar as palavras todas,
as mais proibidas, as não ditas,
as malditas,
as palavras chaves, retidas...

Deixa rolar a vida negada
dos sem-nome,
dos excluídos, todos,
dos sem chances de expressão.

Deixe a porta aberta,
o vento entrar, espalhar papéis,
misturar letras, trocar páginas,
bulir prateleiras estanques.

Deixa rolar os sons tortos,
dissonantes, destoantes...
nuvens brancas de um céu azul
descoberto e luminoso.

Deixa rolar a arte,
o poeta mostrar seu verso de protesto contra a farsa,
a política nefasta
que néga festa ao povo

Deixa a periferia falar.
Deixa rolar os sons todos,
Os sons tortos.
Deixa rolar.

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CONSTRUIR É FICAR

Construir é moldar a natureza de forma a torná-la habitat.
Construir é elaborar o espaço interior no exterior.
Construir é violar o ar.
Construir é domar raios solares, chuva e vento
e distribuir os grãos na boca dos filhos.
Construir é querer ficar, fechar o céu para as estrelas.
É abrir e fechar portas,
Ocupar o ar do planeta, tijolo com tijolo num desenho
e, lógico,
amar sob as telhas.
O útil de tudo não são paredes e teto, mas o nada subitamente aprisionado.

26.08.99

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VIREI CHINÊS

Vou virar chinês,
só comerei arroz,
lerei Lao Tsé e Chuan Tzu
e paradoxalmente
serei confucionista.
Vou sentar em lotus
e me tornar budista.

Adeus maniqueísmo,
eu já estou ficando louco.
Quero só um pouco
de silêncio, harmonia.
Chega de cálculo e frieza,
quero a natureza,
ser instintivo e ter alegria.

Vou vencer eu próprio,
refrear meus desejos,
conter ímpetos,
desocupar espaços
e me tornar útil
como uma vasilha
para quem queira
dela fazer bom uso.

Bem caminha
quem não deixa rastros,
quem entende a vida
e abriga o simples,
o são e o natural.
Quem abraça o bem
Sem negar o mal

Chega de tanto pensar,
procurar saída,
correr atrás do futuro.
Vou viver o agora.
Conhecer-me inteiro.
Superar meus desejos.
Eu vou praticar inação
e disso tirar lição.

Chega de tensão, aflição,
bolsa de valores e celular.
Quero me desligar,
desplugar por inteiro.
Deitar-me na rede,
Tratar-me de forma natural.
Quero a acupuntura,
a massagem oriental
pra relaxar e me curar
do stress, internet,
trânsito e televisão.

Vou me largar por aí
Deixar o mundo girar
Dividir as dívidas
e duvidar das dúvidas*,
caminhar sem pressa.
Viver sem querer ir ao fim,
seguir pelo desvio,
pelo caminho estreito,
pelo fio da navalha.

Vou deixar de ser
só racional.
Vou virar chinês,
Inteirar-me da filosofia
e da dialética oriental.
Vou beber da fonte.
Vou matar a sede
e seja o que o Tao quiser.


*a referência grifada do texto é do músico Jards Macalé.

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HORIZONTES

Abrir horizontes, virar a página,
acreditar no hoje, no agora.
Fazer do daqui a pouco o já.

Toda palavra,
toda pá lavra a terra,
toda palavra guardada,
toda palavra dada,
toda dádiva, toda vida.

Fazer do pouco o suficiente
e do quase nada o bastante.
O distante é meta
e meter as caras.

Não há muro intransponível
e noite que não chegue ao dia.
Não há meta impossível de se almejar.
É só por alma naquilo que se faz.
Força e vontade demovem pedra e veto.

As queixas são lágrimas,
página virada.
Lamentos são murmúrios do passado.
Vontade é o que move o mundo e coragem.
Mudar,
muda dá,
brotar,
saber conquistar.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 04/05/2006
Reeditado em 21/10/2006
Código do texto: T149912

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
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