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SÓ SAUDADE

Não sei bem o motivo,
mas sei que hoje sou só saudade...
Saudade de quem jamais verei,
de vozes que jamais escutarei,
de sensações que jamais terei.
Saudade de uma garota alegre,
 corajosa, cheia de vontade,
que tinha e sentia proteção.
Não sabia ainda da solidão humana.
Pensava que seria sempre amparada e defendida.
Não sabia ainda o quanto é difícil deixar de ser filha...
E nessa época, que se fala de Papai-Noel,
essa garota teima em me fazer sentir saudade, muitas saudades de tantas coisas...
Saudade
 da boca suja e lambuzada de manga,
que tinha um sabor especial,
pois era adquirida
com a emoção da aventura
de ser roubada de um outro quintal,
e só entende desse sabor,
quem já pulou muros,
 levou tiros de espingardinha de sal,
do proprietário do quintal.
Como ardia o sal penetrando na pele,
mas a alegria de sair com a fruta na mão,
ainda era muito maior.
Saudade de andar em muros,
subir em árvores altíssimas,
ficar no último galho,
balançando com o vento,
tamanha a leveza do ser,
avistar a cidade por cima,
sentindo grandeza e poder.
Saudade
de jogar os sapatos fora nas enxurradas,
só para ver a água suja de barro, levá-los.
Aí sim, com os pés descalços,
que ficavam lameados,
sentia, em pé de igualdade e de liberdade
com a água, na mesma condição natural.
Saudade
dos castigos que levava
por ser arteira e destemida demais.
Castigo de amor, dado por um "ser" lindo,
 que mais amei em minha vida
E é dele, desse ser,
que a saudade fala alto e em bom tom.
Que vontade de chamar por ela e dizer apenas:
Mamãe!!!
Que palavra forte é essa,
que faz doer quando sabemos
que não somos mais escutadas por ela,
ou se somos,
não a escutamos mais.
Saudade do vestido rodado e novo,
que usava na noite do Natal,
e até saudade do medo do Papai-Noel.
Hoje, os antigos lábios melados de manga,
são bem contornados de batom.
Os vestidos rodados
foram trocados por saias justas rendadas.
Os pés sujos das enxurradas,
vestem meias de seda
com sapatos de salto alto,
na noite de Natal
e
nem mais um cadinho
de medo
 tenho do Papai-Noel...

Sandra Lúcia Ceccon Perazzo
Sperazzo
Enviado por Sperazzo em 31/01/2006
Reeditado em 14/10/2010
Código do texto: T106686
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sperazzo
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