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PASSEIO A DIAMANATINA

Vim rever-te “Vovó Diamantina”
E como estou feliz em enlaçar-te!
Beijando-te a mão encarquilhada,
Sinto tremer-me a alma emocionada...
E como te achei bela e remoçada
E alegre  e acolhedora, Vovózinha.
Teus cabelos de neve aureolados
Pedem beijos, ternuras e carícias.

Na ânsia de rever-te canto a canto,
Vim descendo pela Rua das Mercês,
Na esquina encontrei-me com a saudade
Que me levou docemente pela mão.
E nas asas do sonho vim descendo,
Sorrindo sem saber que sorria,
Sem nem sentir que cantava...
Rua Direita - acima do cinema –
Lá estava, Vovó, nossa casinha:
Pequenina, singela, igualzinha!...
(... melodias de leve, em surdina...)
Reconheço o som do meu piano.
Papai ouvindo e corrigindo
“dó  - ré - mi - fá - sol
fá - mi  -  ré  - dó “
Na meiguice da ternura ouço uma voz,
Um sussurro, um murmúrio, uma prece:
É Mamãe !...
“Meninas, silêncio, ouçam o piano,
É a Conceição quem está tocando.
Seu piano é mavioso, é dolente,
Seu piano é ternura, é diferente.”
E a música de leve vai sumindo,
Lentamente se esvaindo em surdina.
Dá-me teu fino lenço de cambraia,
Quero secar estas lágrimas, Vovó,
Que teimam em rolar-me pela face...
Que dor tão doída, Vovózinha,
Onde estão eles, onde foram
Minha irmã, Papai e Mamãezinha?
Sou tão feliz estando a teu lado, Vovó,
Mas a saudade, a minha companheira
Insiste em levar-me...

Que donzela tão bonita, tão singela
Na sacada, em frente à Catedral,
Tem nos olhos o brilho das estrelas,
Tem na voz murmúrios de oração
E no semblante a pureza de uma santa.
-Mas já não há mais Catedral
Ali é a Sé !
Vovó, mas que surpresa.
É ela, a donzela, com certeza.
A minha saudosa Tia Zezé”
 E eu me quedo a ouvi-la com respeito,
Com saudade, com ternura, com emoção:.

        “Hermengarda – ousei amá-la
         De Favila a nobre filha...”

Esvai-se a miragem, esvai-se o sonho.
Esfumaça-se a visão e eu desperto:
Tudo está vazio, tudo está deserto.
E a tarde cai monótona e dolente
Sugerindo aconchego ternamente.

Vou seguindo pela rua do Bonfim
E a saudade leva-me ali pelo jardim
Àquela casa antiga e singular
Onde o passado emerge da neblina
Em que te envolves, Vovó Diamantina.
Minha alma ascende com veneração
O corredor de pedra, a escadinha.
A sala é antiga. Um canapé,
Cadeiras de palhinha.
Breve há de surgir a Sinhá-Moça
A suspirar ali no seu balcão...
Santos antigos, imagens mutiladas,
E o quebra-luz a um canto é a evocação
Do enterro de Jesus em procissão.

Percorro a casa antiga
Cheia de ressonâncias e de preces.
E sinto a alma prostrar-se de joellhos
E adorar esse passado tão presente
Em que tudo era beleza, nostalgia,
Era lirismo, sonho, poesia..Em surdina ouço Bach
E enternecida cerro os olhos mansamente
A melodia a embalar-me docemente ...

Desço a ladeira rumo ao “Rio Grande”
Cada pedra lembra um sonho, uma emoção.
“Sempre-vivas” florindo alegremente
Colorem a paisagem diferente.
Borboletas aos pares rodopiam
Mostrando-me o “Cruzeiro” ao entardecer.
Fico estática ante as montanhas de granito,
E vem-me à alma um sentimento esquisito,
Misto de paz, angústia e solidão...

Como estás linda, Vovó Diamantina.
Vista de longe, aqui deste “Cruzeiro”!...
Tua cabeça alva, aureolada,
Recoberta na mantilha das estrelas,
Brilha tanto, qual rara filigrana,
No escrínio de veludo da amplidão...

Adeus, Vovó Diamantina.
Hei de voltar a ver-te algum dia,
Mas ao chegar, suplico Vovózinha,0
Dá-me por guia a Felicidade
Para que eu sorria ao granito,
Carregue sonhos leves pelas mãos,
Sinta a alma daquelas “sempre-vivas”
Veja estrelas esparsas pelo chão,
Mas não sinta, Vovó, esta saudade,
Esta saudade que dói tanto ao coração...

Linandre
Enviado por Linandre em 05/06/2006
Código do texto: T169715
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Sobre a autora
Linandre
Itabira - Minas Gerais - Brasil
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