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REMINISCÊNCIAS

O entardecer trouxe consigo
Belas recordações àquele homem
Que, deitado na margem do rio,
Contemplava, absorto, o crepúsculo.
Seus pensamentos voltaram ao passado
E o conduziram à essência da sua vida.
Naqueles ternos momentos de nostalgia,
Ele pode, como num passe de mágica,
Trazer à mente todas as boas cenas
Que marcaram indelevelmente sua vida.
Recordou sua infância pobre,
Sem brinquedos, sem roupas bonitas,
A viver apenas das ilusões infantis.

Veio-lhe a imagem da sua mãe,
Com aquele olhar tão cálido
E aquelas palavras tão brandas,
Que sempre se postava ao seu lado
E o consolava nos momentos difíceis,
Afagando-lhe carinhosamente a cabeça,
Acalentando-lhe no colo aconchegante,
Contando-lhe estórias para dormir.
Ela encarnava toda a ventura,
Toda a bondade, todo o calor;
Dela irradiava uma fulgurosa beleza,
Que ele contemplava como em transe.
Os olhos ternos da mãe a fitá-lo,
Seus lábios quentes a beijá-lo,
Suas mãos macias a acariciá-lo,
Sua presença sempre marcante a acompanhá-lo.

Lembrou-se, também, do seu pai,
Seu bom pai, sempre compreensivo,
Fiel companheiro das brincadeiras fagueiras,
Amigo certo dos momentos de tristeza,
Sempre procurando entendê-lo,
Procurando aconselhá-lo,
Para que ele fosse um grande homem.
Sempre se espelhara na figura do pai,
Aquele homem magro, meio quieto,
Que tudo sabia e tudo compreendia,
Rico em inteligência, pródigo em cultura,
Do qual sempre obtinha preciosos conselhos.
O olhar sereno do pai a acompanhá-lo,
Às vezes ríspido para censurá-lo,
Infinitas vezes meigo para recompensá-lo.
Sua voz firme a penetrar em seus ouvidos,
A proferir-lhe severos sermões,
A contar-lhe divertidas estórias.

Lembrou-se, ainda, de seus avós,
Aquelas duas criaturas incríveis,
Um tanto patriarcais, sisudas,
Mas sempre a cobri-lo de carinhos.
Quantas histórias eles lhe contaram,
Histórias de sua mocidade,
Histórias dos bons tempos que se foram!
Quantas horas passou em sua companhia,
A ouvi-los, a amá-los, a venerá-los,
Como se fossem dois ídolos sagrados!

Lembrou-se, também, da sua rua,
Dos companheiros de brincadeiras,
Das traquinagens endiabradas,
A pular em alegria interminável,
Como se a vida fosse um eterno brincar.
Os bois que passavam rumo ao matadouro,
As corridas de pique,
Os jogos de bolinha de gude,
O futebol desajeitado,
Os frágeis castelos de areia,
As pipas a ganharem o céu azul,
A natação gostosa no Rio Ribeira,
A mata virgem, onde passarinhava,
O Cristo Redentor lá em cima do morro,
A imagem santa do Bom Jesus,
Que parecia fitá-lo.

Lembrou-se, por fim, da sua cidade,
A sua velha e calma cidade,
Tão velha quanto o tempo
E tão atraente como uma jovem em flor.
Os antigos casarões a se imporem majestosos;
A imponente Basílica, com suas altas torres,
Que eram avistadas à distância;
Os enormes "flamboyants" da praça central,
Sob os quais, nas tardes ensolaradas,
Descansava, protegido pela sombra amiga.
O ar puro do seu torrão natal
Parecia invadir-lhe as narinas;
Aquele sua aparência de cidade colonial,
Tão velha e, incrivelmente, tão cheia de vida,
Que, para sempre, se gravaram na memória.

Afinal, suas reminiscências se foram...
A noite, silenciosa, já viera
E o envolvera com seu suave negror.
Ele levantou-se, contemplou o rio,
Olhou em seu redor – apenas ele e o rio.
Um pouco triste, voltou à sua casa.
Dos seus olhos escorriam lágrimas de saudade!
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 25/09/2007
Código do texto: T668572

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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Roberto Fortes