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A ESMOLA


Magras
como as bisagras
de algum caixão funerário
que fecha o corpo à criança,
foi desse modo que as vi.
     A filha, desidratada,
     de pele aos ossos colada,
     o mole seio materno
     nem mais podia sugar.
     Na cor roxo-amarelada
     muito mais que desbotada,
     parece, não tinha sangue.
     Os olhos, dois pirilampos
     piscando, pedindo vida,
     numa expressão comovida
     pronunciavam...
     - Suponho tê-los ouvido
     em seu silêncio de morte -
     pronunciavam - mamãe...
        Era a mãe, silenciosa,
        tristonha, quieta, chorosa,
        quase sem forças - raquítica
        sobre uma esteira deitada.
        Olhou-me, estendeu a mão
        na qual eu pus um tostão
        que de nada me servia.

Um jarro frágil, vazado
em vidro cristalizado,
desse modo as comparei.

          Passava para o almoço...
          Passava - quando voltei...
          Eram as duas inermes,
          como se fossem dois vermes
          dormindo um sobre o outro...

       Comparo duas bisagras,
       um jarro fino e uma flor,
       unicamente dois vermes...
       Dois vermes pedindo amor!
       Mas eu lhes dei a esmola...
       - Desgraça! A última esmola! -,
       que nem sequer foi servida.

          Comparo agora essa vida...
          Não acho comparação.

joaojustiniano@terra.com.br
www.joaojustiniano.net
João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 10/06/2006
Código do texto: T172859

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
619 textos (19608 leituras)
13 e-livros (1027 leituras)
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João Justiniano