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TENTANDO ACHAR-ME

“Achar-se, é abraçar a alma”

Sir Herzog Izael (1756-1805)



Cansado de suplicar alguma atenção,
Conclui pesaroso estagnar meu querer.
Decidi abortar o último esforço,
Não tencionava incorrer em novo baque.
Não insistir na avareza era um avanço
Que consistia em repelir sofrimentos.
Seria em vão alimentar tão caro desejo,
Era uma ilusão meu segmento doentio.
Aquele relacionamento pegajoso e suicida,
Transportava-me cada vez mais ao lamaçal
Onde um torpor inerte decretava minha ruína.
A mente que estava corroída por seqüelas,
Ao mesmo tempo expunha profundas marcas
Infectadas por depressões abrasadas,
Com intermitências incomodativas da traição.
Todo o glamour que permeava o passado
Estava sucumbido para sempre,
Num paradoxo intrincado e retroativo.
Eu já não tinha origem nem elementos constitutivos.
Aquele amor repudiou minha sensibilidade,
Deixando fragmentos de uma vida desmantelada.
Sinto-me acrescido de um ceticismo grandioso,
Com abrangência comprometedora e mensurável.
Vivo martirizando-me abraçado a tristeza;
Sem um propósito pré-definido de vida regular.
Meu livro de vida compendia páginas
Onde o apego é esquecido e descartável.
Capítulos obscuros e sinuosos contrapõem-se
Para ensinar-me a ser só, solitário e cáustico.
Anulei-me frente a novas investidas do amor.
O tédio ensinou-me que todo relacionamento
É perplexo, rodeado por utopias infindas.
Meu esboço de alegria é ocasional e fortuito.
Ainda assim, concernente à lembrança,
Lembro dos beijos que não lhe dei,
Dos segredos que não confidenciei;
O último olhar pronto para hostilizar,
E todo o amor que restava, solto no ar.
Ganhei a noite, tentando extravasar a dor.
Sempre vertendo anseios utópicos,
Enveredei por caminhos sinistros.
Efêmeros flertes adicionam tristeza.
Reparei o comércio da falsa beleza,
Com suas bocas vermelhas disponíveis.
Não observei encanto na lua desbotada.
Uma gota atrevida de chuva tocou meus lábios.
Minha saliva era o próprio fel do calvário.
Recebi um falso abraço convidativo.
Descartei a possibilidade da abordagem.
Adormeci e vislumbrei num maldito sonho,
A perspectiva de uma manhã de primavera.
Despertei num cubículo asqueroso.
Mais uma noite errante e maçante,
Ao lado de alguém sem rosto, sem nome.
O atrevido sol lambeu minha ressequida face.
Horríveis pássaros sobrevoavam a cidade,
Impregnando o solo com seus dejetos cancerígenos.
Reticente quanto a minha existência,
Vi-me no término paradoxo da busca.
Talvez eu ainda esteja lá, empalidecido,
Dando milho aos pardais, tentando achar-me.
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 20/11/2005
Reeditado em 04/07/2009
Código do texto: T73893
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Paulo Izael

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