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Cartas a Job

A ti
que ontem,
para tua surpresa,
entre dois trambolhões
levantaste a taça do triunfo
e volteias por cima da presa
aguardando
picar.

A ti
cuja última esperança
é esperar
que amanheça,
para que esse dia
que começa
seja igual
ao de ontem, ao de hoje
ao de amanhã.

A ti
que instalaste
no teu coração
a perfeição como rotina,
que temes o ódio e
e foges do amor,
que usas guarda-chuva
no bom e no mau tempo,
que arrancas por nada
ou quase nada
a raiz ao pensamento.

A ti
que deixaste tudo
para seguir o Senhor
e servir os irmãos.
Que para lá
das perguntas que te fazes
e Lhe fazes
sobre a pena que vale
o caminho escolhido,
persegues os caminhos do  amor.

A ti
que nos alegras
quando chegas
e a ti
que partes
e nos deixas doidos
de saudade.

A ti
que cruzaste ontem
comigo
e sem saberes
o teu sorriso
fez a diferença.

A ti
que amas ou detestas
a vida que levas,
para quem a solidão
são trevas ou é salvação.

A ti
que és
a cada hora que passa
um pouco
de tudo isto.
Do mau e do bom.
Do monstro e do belo.
Do pobre e do luxo.
Do santo e do vilão.

A ti
Que naquela noite
em que caí
me deitaste a mão.


Esta carta é para ti.

E para mim também.

"Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó;            e era este homem íntegro, recto e temente a Deus e desviava-se do mal."

Já te aconteceu?
Acordar com esta certeza?
Estares seguro da certeza
de que és recto
e íntegro
e positivo
e temente a Deus
porque Deus é Bondade?
Capaz de sofrer nos que sofrem
e viver nos que vivem?
Sentires a coragem
da saudade
de ti em criança
tendo o Senhor
como companheiro de viagem?

E na hora imediata
ao acordar,
deixares essa tua
vã certeza
embrulhada
no jornal da manhã?

Já te aconteceu?
Olha que a mim também.

"E o seu gado era de sete mil ovelhas,                                                três mil camelos, quinhentas juntas de bois                                        e quinhentas jumentas. E iam seus filhos à                                     casa uns dos outros e faziam banquetes."

Já te aconteceu?
Com o muito
ou pouco que possuis
sonhares possuir a Terra?
Encontrares
cada coisa no seu sítio,
os livros na prateleira,
o armário arrumado,
a mulher a teu lado
a sorrir,
os filhos a dormir,
a conta bancária
com saldo para suprir
as contas do fim do mês.
E entre
a Sagração da Primavera
e a Sonata ao Luar
veres-te a meditar
nos desígnios de Deus?

E ao passares a entrada
cruzares
com o vizinho doente?
E num bom dia corrido,
distante e polido
seguires adiante?

Já te aconteceu?
Olha que a mim também.

"E num dia em que os filhos de Deus vieram                          apresentar-se perante o SENHOR, veio também                             Satanás entre eles.
E disse o SENHOR a Satanás: Observaste tu                                  a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra                         semelhante a ele."
 
Já te aconteceu?
Aquele momento de silêncio?
Aquele minuto de paragem?
Aquela viragem
no teu interior
quando escutaste o Senhor
dizer-te,
tal como a Jó,
que não há ninguém na terra
semelhante a ti?
E tu,
com uma Fé
que arrasta montanhas
jurares que tamanhas
promessas de amor?

E logo a seguir,
no meio da multidão
que chora e que ri
sem te olhar
parares de sonhar
porque Deus te abandonou?

Já te aconteceu?
Olha que a mim também.

"Então respondeu Satanás ao SENHOR, e disse: estende a Tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra Ti na Tua face."

Já te aconteceu?

Tudo parecia conquistado.
A pulso.
Era a hora do sonho
na era da luz.
Da quimera
do próximo na sua presença,
do distante na sua reverência,
do incómodo na sua distância,
do apóstolo na sua militância.
Do dinheiro de lado,
progresso e saúde.
E tu confortado
na tua virtude.

Até
aquele teu antigo
pecado esquecido
tua mãe corrigiu.

E eis que tudo ruiu.

Já te aconteceu?
Olha que a mim também.

"Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto                               ele tem está na tua mão; somente contra ele não                       estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença                               do SENHOR."


Já te aconteceu?

Ela foi essa mágoa
que não sabias de onde vinha.
Ele foi esse emprego
que parecia seguro.
Ele foi esse filho
que julgavas maduro.
Ele foi seu sorriso
que tu vias diferente.
Ele foi esse amigo
que deixou de ser crente.
Ele foi o desfazer
o que tocavas
e o destruir
o que amavas.
Ele foi sobretudo
aquele olhar
para ti de lado
como culpado
da tua miséria.

Já te aconteceu?
Olha que a mim também.

"E sucedeu um dia, que veio um mensageiro a Jó, e                        lhe disse: Os bois lavravam, e as jumentas pastavam             junto a eles;
E deram sobre eles os sabeus, e os tomaram, e aos              servos feriram ao fio da espada; e só eu escapei para              trazer-te a nova."

Já te aconteceu?

Perguntares ao Senhor:
Porquê a mim?
Não fui eu sempre
um servo fiel e obediente?
E recto
e íntegro
e positivo
e temente a Deus?
Capaz de sofrer nos que sofrem
e viver nos que vivem?
Sentir a coragem
de Te ter
Senhor
Como companheiro de viagem?
Não sonhei eu
possuir a terra?
Não meditei eu
nos desígnios de Deus?
Não te escutei eu
Senhor
dizeres-me
que não há ninguém na terra
semelhante a mim?

Já te aconteceu?
Fazer essas perguntas ao Senhor?
Olha que a mim também.

"Então Jó se levantou, e rasgou o seu manto,                              e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra,                               e adorou.
E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu                       tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR                              o tomou: bendito seja o nome do SENHOR."

Senti o Teu olhar
e olhei-me.
E vi que estava nu.

Foram precisos
todos estes anos
para compreender.

Que estava nu
dos meus triunfos
e das minhas fraquezas.
Das minhas dúvidas
e das minhas certezas.
Das minhas rugas,
dos meus sucessos,
das minhas fugas
e dos meus regressos.
Daquele momento
de aplauso e de glória
e daquela dor enorme
que calo ou conformo
conforme a memória.
Daquela capacidade
de ser companheiro ou camarada,
de renascer das cinzas
e fazer tudo
do nada ou quase nada.

Amigo.
Reza comigo.
Com a tua
a minha oração tem mais valor.

Bendito seja
o nome do Senhor.

"E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava                 pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou, em dobro,           a tudo quanto Jó antes possuía.

Então vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas    irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram          com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o     consolaram acerca de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro,            e um pendente de ouro.

E assim abençoou o SENHOR o último estado de Jó,            mais do que o primeiro.

E depois disto viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração."

Foram precisos
todos estes anos
para compreender.

Que é sobre
o nada do meu nu
que constróis o Teu Reino.
Pelo nada do meu nu
me escolheste
Teu filho predilecto.
Para além do nada
do meu nu
que sou
ou não sou.

No ontem
que ainda ontem era hoje,
como hoje
será o amanhã,
em cada história que acontece
num momento,
vivida num solar
ou ao relento,
aos sete, aos setenta
ou cento e vinte,
em Dezembro, em Abril
ou em Janeiro
Abençoas Tu mais hoje
o meu estado
do que abençoaste
o meu primeiro.
Manuel Paulo
Enviado por Manuel Paulo em 22/08/2006
Código do texto: T222876
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Manuel Paulo
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