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Doze horas

Você pode me ouvir?
Sei que pode.
Que teu corpo não finda tua vida que se eterniza em mim.
Que a morte, como se entende, não destrua o brilho que teu espírito emana.
Que embora Deus não possa conceber teu ressurgimento a matéria, por não intencionar adiar teu sofrimento ou prolongar em agonia sem fim tua existência, poupando-nos assim do escárnio de vê consumir-se mais e mais, em dor, neste amargo penar.
Muito embora, por vezes, eu não compreenda Deus, em sua aparente indiferença ao nosso martírio aqui na terra... Ainda assim prefiro não desistir de crer.
Isso foi o que demais definitivo aprendi com você, mãe.
Que nós somos filhos, legítimos, de nossa fé.
Confesso que por muitos anos acreditei que era mais forte, menos sensível, menos carente dos teus cuidados, de tuas mãos mornas... Me descubro agora tão frágil.
Talvez por passar maior parte da vida sonhando com coisas tão grandiosas. Acabei por esquecer os pequenos detalhes que iam construindo (agora vejo) minha história de vida. Não!Nossa história!
Quando fecho os meus olhos a vejo sorrir por cousas tão singelas, tolas (ao meu entendimento parco) até... Hoje enxergo, causavam-lhe tamanha alegria. Lembro de como cuidava dos brancos fios de cabelo, de como calçava seu chinelo gasto. Ah!mãe. Bons tempos eram aqueles. Em que teu colo esteve bem ali... Aquecido me protegia do frio e da dor. Em que teus dedos apontados me indicavam o caminho.
Estou lhe escrevendo tudo isso não por tristeza, embora haja na minha voz certo tom melancólico. Escrevo pra dizer-te o quanto foi bom nascer do teu ventre, surgir de você...
Ter sentido minhas primeiras decepções, ter amargado as dores das primeiras quedas e depois ter caído tantas vezes, enquanto eu a tinha aqui pra me ajudar a levantar. Muito obrigado,mãe...
Sou obra prima de você. Sou um desejo feito gozo, um gozo feito em amor.
Sou tão parte de ti que nem conseguiria descrever se assim o quisesse.
Verdade que não herdei metade da tua coragem, nem da tua força. Mostro aos outros esta casca dura aparentemente forte. Mas não é nada além do que estas pessoas esperam de mim.
Não o que sou por dentro. Agora estou aqui sem tua presença física e eu sei... Terá que ser assim, exercitar tudo o que aprendi com você.
Sei que ficaria orgulhosa. Posso até imaginá-la sorrir satisfeita.
Eu a encontro em mim em cada gesto, em cada palavra.
Nas coisas que discordamos às coisas que conjugamos, como só bons amigos fazem... Nisto eu posso entender o quanto está aqui o tempo todo. Minhas palavras não podem expressar todo o amor que eu sempre senti por você.
Mas eu sei que teu sangue, tua herança de sabedoria e integridade fluem em cada gota de sangue dos meus filhos;teus netos. Que eles perpetuem tua passagem por estes campos!
Que eternizem em si o que hoje representas para mim!
Fique com Deus, mãe!

Eu sempre te amarei!


Wam Nick
Enviado por Wam Nick em 26/09/2007
Código do texto: T669843

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Sobre o autor
Wam Nick
Recife - Pernambuco - Brasil, 42 anos
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