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Sê criança outra vez

Adulto amargo, cansado e triste,
de cara amarrada e olhos sombrios;
cabeça pesada, do peso da vida,
vida que pesa, na alma e no bolso.
Sê criança outra vez!

Esquece a tristeza, encara a beleza,
coloca um sorriso, na boca torcida;
estende a mão grossa, a quem a seu lado,
caminha calado, fechado, vazio.
Sê criança outra vez!

Ergue os olhos do chão, sujo, molhado,
vê a chuva que cai, cai mansamente.
Olha a capa ensopada, sapato encharcado.
Crê que esta chuva, é benção do céu.
Sê criança outra vez!

Corre e pula na grama, seu filho também.
Dá cambalhota, esquece os negócios.
– Olha o avião! É bonito papai!
Quando eu era criança, queria voar.
Sê criança outra vez!

Coma um sorvete, esquece os jantares.
Um doce gostoso, segurando a mão dela.
Bebida de adulto, criança não toma;
o que pode criança, adulto não quer.
Sê criança outra vez!

Passarinho voando, criança gritando;
a bola correndo, você só olhando...
– Não quero barulho; estou ocupado!
Gente importante. Cuca fundida, alma vazia.
Sê criança outra vez!

Sorrisos não dá; sério tem que ficar.
A bola chutar; não! O que vão pensar...
Fica olhando pro nada; está planejando;
escrever para ele, é só cheque assinar.
Sê criança outra vez!

Pra ela, olha um pouco, vê seu rosto tristonho;
ela é sua amiga, companheira também.
A garota bonita, é um sonho meu caro.
Você tão sisudo, já se olhou no espelho?
Sê criança outra vez!

Deixe a pose de lado, a caneta de ouro.
Calça aquele chinelo; foi ela quem deu.
A bermuda apertada, a barriga prosperou,
mostra pernas tão brancas... – Sou alérgico a sol.
Sê criança outra vez!

Pega aquela mochila, que está no quartinho,
convida seu filho, convida ela também.
– Vou fazer sanduíche e sair por ai!
Carro não quero. Vou andar com vocês.
Sê criança outra vez!

Veja o verde que há; na praça, no parque;
olha as flores se abrindo. Já é primavera!
E os peixinhos do lago; já viu que beleza?
Ela está com você e seu filho também.
Sê criança outra vez!

Como pipoca, sentado no chão, bola na mão;
abraça seu filho, que rola na grama; e olha:
ela é bonita, sorri pra você; ela é seu amor!
Você é feliz, parece garoto!
Alergia do sol? Até acabou.
Sê criança outra vez!

Daize Dorça - SP, 03/05/1980.
Daize
Enviado por Daize em 23/08/2005
Código do texto: T44521
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Sobre a autora
Daize
São Paulo - São Paulo - Brasil, 76 anos
55 textos (3837 leituras)
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