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A MORTE DA RODOVIA

Hoje a rodovia morreu.
Estrangulada, não suportou e cedeu.
O séquito de carros se alongava
extensamente sobre seu corpo.
Motoristas boquiabertos, debruçados sobre os carros,
fumavam e comentavam o drástico fim.
Alguns tinham lágrimas nos olhos,
um ou outro soluçava, limpava os olhos
com o antebraço, se molhava bastante.
Como cobra colorida com espasmos
o cortejo apenas ia e vinha
sobre o corpo morto.
Um ou outro se arriscava e se agachava
para passar a mão sobre a pele da morta.
Alguns comentavam sobre o seu estado.
Envelhecida, rugosa, cheia de buracos,
até que durou muito...
Os que moram à margem dela lamentavam sua partida;
terão que se mudar à procura de sustento,
um ou outro não vai poder mais assaltar,
um lá do sítio não vai mais vender milho,
o esmoleiro já se agiliza,
vai partir hoje à noite,
já enviou as muletas.
Enfim, nenhum político apareceu,
a viúva não mora ali,
pouca frequência de votantes.
Um ou outro dizia..."É, esse dia ia chegar...",
um outro..."Não esperava por isso..."
Acima, bem acima, o helicóptero rondava
à espera de que a procissão andasse,
sem saber ao certo se havia ou não
e onde estava o andor.
E eu, certo de que não conhecia a rodovia,
fechei o poema sem me por a lamentar
pela morte da mesma.


Preto Moreno
11/04/2006


















Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 11/04/2006
Reeditado em 11/04/2006
Código do texto: T137459

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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