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MINHA VIDA NO FUNDO DO MAR

Quando nasci, comi minha mãe.
Ninguém me avisou que eu era um predador.
Um peixe bonito, escamas lisas, afiadas,
Dentes firmes e pegada forte.

Era quase um velociraptor aquático.
Apenas deixava o rastro aquoso de sangue.
Mas na água não há pegadas.
Bastava um movimento rápido
E já estava em outra onda,
Outras paisagens.

A fama cresce e corre mares.

Quantas vezes estive em luta
Contra predadores ferozes,
Peixes enormes, cheios de cicatrizes,
Como se fossem medalhas de outros combates.
Venci a todos.

Componentes de ajuda?
Raciocínio rápido, pensar como o outro,
Muita velocidade e golpes mortais.

Por causa dessas vitórias namorei muito.
Mas, comi todas.
Acho que é o instinto.

Quando durmo um pouco, de olhos abertos,
Sonho com dinossauros em verdes paragens,
Um cenário desolado e muitos gritos e uivos,
O som da melancolia atravessa os canyons...
Aí, vem outra saudade,
Como coração de minério arrancado
Sonhando altas montanhas...

Acordo rápido, o mar se agita,
Barcos de pesca à nossa procura...
Gostaria muito de enfrentar um homem,
Mano à mano, barbatana à barbatana,
Ver quem pode mais.

Eu não sei respirar lá fora,
O homem sabe como respirar aqui no fundo.
Um combate limpo, eu com meus dentes,
Ele com as armas que quiser...

Essas lembranças do peixe que fui,
Agora que escrevo aqui em casa,
Nessa tarde de outono e quase fria,
Me vem à mente imagens de como serei
N'algum tempo lá na frente...

Sinto que viverei num aquário de gigantes ciclopes
Que virão de outros lugares...
Serei uma espécie de peixe-homem, sem barbatanas,
Sem guelras, sem escamas, limpo, escovado,
Barbeado, nu, ondulando numa dimensão aquática
De 12x12 metros, tipo arena d'água,
Onde enfrentarei os brinquedos mecânicos
Que serão colocados para um enfrentamento,
Enquanto assistem como morre um peixe-homem
Que já foi poeira de estrelas, peixe voraz,
Primata herbívoro e brincalhão, nauta,
Astronauta, argonauta, futuro da lembrança,
E à semelhança daquele que nunca vi.


Preto Moreno
22/05/2006








Preto Moreno
Enviado por Preto Moreno em 22/05/2006
Reeditado em 24/05/2006
Código do texto: T160835

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Sobre o autor
Preto Moreno
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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