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As Flores da Madrugada

                      i
As flores da madrugada têm o rancor do trombone
Mal-amada que me some arredia, amuada.
As flores da madrugada têm o perfume da sirene
que me irrita quando treme no fulgor da minha estrada.
Quando em plena madrugada eu procuro pelas flores,
o que encontro são odores que me jogam lá pra cima
onde aves de rapina mais parecem monumentos
num bailado nauseabundo destinado a me assustar.
Eu que fora procurar pelas flores da madruga,
quero que alguém me iluda e me diga que as achei.
As flores da madrugada, foi com elas que sonhei.
                                 
                      ii
As flores da madrugada me inundam de tristeza.
Vou correndo na certeza de com elas me encontrar.
Pra sorrir e gargalhar, pra mijar e refletir
que a pura alegria pode um dia consumir
a carcaça escangalhada que em plena madrugada
eu botei pra procurar pelas flores que achei.
Já não sei o que não posso, o que pareço ou o que iludo.
Vou em frente e, contudo, me corrige a solidão.
Imersão num caldeirão dessa essência tão vulgar,
nela fui me encontrar, nela me abduzi.
E as coisas que senti, serão minhas ou não são?

                     iii
As flores da madrugada me reprimem e me toleram,
nunca posso o que não quero, me reduzem ao que eu sou:
gigolô da existência, doce de mata-borrão,
da mais pura incoerência a maior aberração.
Pego o pé do agrião pra usar como destino.
O olfato é o desatino de quem quis a hortelã.
Vem aí a artesã construindo o meu boneco.
Eu me olho e sinto um treco: corro pra me abraçar.
Ninguém vem ao meu encontro, nem as flores da madruga
com as quais, não se iluda, nunca quis me encontrar.
As flores da madrugada me convidam pra jantar.


Rio, 28/04/2006
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 13/06/2006
Reeditado em 13/10/2006
Código do texto: T174491

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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