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Vários homens de branco
surgiram no meio do céu.
Várias pulgas matei na minha cama.

Minha cabeça doía,
eu não via mais nada;
minha mãe aparecia,
me dava chá cum torrada.

No dia seguinte, passei todo empinado,
sem olhar pra ninguém.
Certamente pensaram
que eu tinha muito dinheiro.

Vários homens de branco
surgiram no meio do céu.
No meio do mato cagavam,
mas não usavam papel.

Podia-se ouvir o cantar dos passarinhos.
No meu quarto sozinho não sei se me acho melhor.

Chamaram-me de burro,
disseram que eu era egoísta,
me admiravam demais.
Passei todo empertigado,
morri dois dias na frente,
mas não olhei para trás.

Coçou o saco, passou o dedo na bunda e cheirou.
Depois lavou a mão
(com certeza pra você não pensar mal dele),
sentou-se e pegou o jornal.
Sua filha de sete aninhos,
com aquelas coxinhas gostosas,
chegou perto e lhe perguntou algo sobre Matemática.

Era uma pata gulosa,
comia à toda hora.
Bateram na minha porta,
mandei o mendigo embora.

Usou um belo caixão:
madeira envernizada, de ótima qualidade.
Taí, um belo ramo de negócios.

Descabelada,
chorava a perda do filho a pobre da mulher.
Não tenho nada
que possa te oferecer a não ser meu café.

O sonho é a melhor circunstância.
A nuvem, tantas vezes bonita;
o prazer, nada mais excitante;
o poder, sempre contagiante;
o dinheiro traz com ele o delírio
de novas matrizes felizes...
mas o sonho é a melhor circunstância.

Vários homens de branco
surgiram no meio do céu.
Todos pagavam Imposto de Renda,
todos tinham identidade,
nem todos tinham o mesmo nome.


Rio, 30/06/1973
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 07/07/2006
Reeditado em 30/10/2006
Código do texto: T189010

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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