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O Trem De Cento E Dez Vagões

Quando eu era mais jovem do que hoje
Disseram a mim que existia
Um trem de cento e dez vagões
Lá pelas bandas da Bahia
Eu sempre esperava esse trem passar
Mas ele nunca aparecia
Então perguntei ao homem da estação:
Cara, consigo ver o que não posso conceber?
Ele respondeu:
Rapaz, tudo é concebível, basta só imaginar
E eu fui atrás do trem de cento e dez vagões

Depois eu cresci como crescem todos por aqui
E caminhei pela longa estrada
Onde imaginava que o trem passava
E desci na próxima parada
Eu fiquei esperando o último vagão
Para acomodar a mala pesada
O homem do número ao meu lado me disse:
Rapaz, o último e o primeiro são partes do todo
Eu exclamei:
Cara, então você quer dizer que a essência é tudo!
E eu fui atrás do trem de cento e dez vagões

Então a primavera chegou muito mais florida
Minhas roupas mudaram de cor
E meu corte de cabelo ficou na moda
Eu vi de perto o prazer e a dor
Vi tudo que se podia ver, menos o trem passar
Ele nunca estava lá
De repente o homem do Exército falou:
Jovem, a liberdade tem um preço alto demais
Eu discordei:
Cara, a liberdade é algo que não se paga, conquista-se
E eu fui atrás do trem de cento e dez vagões

Algum tempo mais tarde eu vi outras máquinas
Outros sistemas, outros regimes...
E minhas idéias não acompanhavam o trem
Idealizei então uma ferrovia
Onde muitos trens poderiam trafegar
Mas alguns se desviaram do caminho
Pedi uma explicação ao homem da paróquia:
Cara, como pode a vida ser diferente para cada um?
Ele ponderou:
Jovem, a fé e o temor são dois lados de mesmo valor
E eu fui atrás do trem de cento e dez vagões

Muitos anos se passaram na minha juventude
Meus amigos passaram comigo
E nenhum de nós conseguiu ver o trem
Mas ouvi dizer que à noite passava
O trem que há muito eu esperava
Então parei à mesa de um bar
E perguntei ao homem da vida à minha frente:
Cara, como posso saber que existe o que não vejo?
Ele me esclareceu:
Rapaz, você está dentro do trem que tanto procurava
E eu vi enfim o trem de cento e dez vagões
Paulo Antonio Barreto Junior
Enviado por Paulo Antonio Barreto Junior em 24/10/2007
Código do texto: T707526
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Sobre o autor
Paulo Antonio Barreto Junior
Salvador - Bahia - Brasil, 46 anos
417 textos (6204 leituras)
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