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Estudos pessoanos


Um vento me joga nas cinzas
me deixa perdido em meio a lembranças
que andam por sobre as calçadas da dor

Como se em repentes transbordasse-me
paisagens de velhas vilas com moças na janela
esperando todas o sonho nascer

E entre a paisagem e o transbordamento
na rua de barro, os cães latem e correm atrás
das bicicletas que passam no meio do meu tonto
coração desatinado

Subsequente a minha devoção
de estar vendo e ser o que vejo
um caminho se abre por cima
do cipestre na estrada que me sinto

Os campônios que caminham
por essa estrada de mim
para o cipestre olham soltos
e cada folha que cai
é outra amarra que se esvai
na outra estrada que não vejo

Quem sabe assim, por não vê-la, nalguma parte
mais perdida ainda de mim, encontre-me eu redundante
enquanto tanto me for possível estar reiterado
noutras pequenas porções de outras exclamações
também perdidas, enfim

Mas sei que o caminho que em mim somo e subdivido é triste
Pois não mais se encontra com o desejo dos loucos
arquejando sob o peso do porvir

Assim foi de longe
que o mito fragmentou-se pela percepção perpétua
dos fundos caóticos que norteiam nossos desejos

E decorre desse ato caminho lembrança
um não sei o quê de solidão
que me tortura e torna-me luz

II

A noite é fria
e sob a luz da lâmpada elétrica
escrevo

escrevo vendo imensos navios se amontoando
por dentro do borbulhar dos passos em pressa
girassolando o eu dos troncos das árvores
nas quais o homem mostra seu rosto frio

escrevo vendo meu copo de vinho beirando metade
e de sonho em sonho caminho calado
por todas as minhas esquecidas terras

E assim flui incansável
um momento de crer raramente
intérprete bêbado, sôfrego em por
todos em muitos tolos votos

Mas os votos são palavras
são faces efêmeras e soltas
largadas
em larguras extremas
por onde escrevo, sinto e sonho
as noites de frio
sob a luz da lâmpada elétrica

Há magia demais nas lâmpadas elétricas!!

E mesmo se não a tivessem
conclamariam os morros a levantar seus punhos

e o celestial
seria terreno

e a bestial beleza
seria uma crina
de cavalo manso
cavalo dança

E M  D I S P A R A D A

Escrevo e Cravo!

II

Quando ontem passei pela fina chuva
que em meu peito desnudamente batia
o absurdo das horas como nunca se me mostrou

Um velho, dos mais velhos que já viram minhas cansadas retinas,
cantava dançando com almas nas mãos
e com os pés berrava mentiras mais velhas ainda
do que todas as outras mentiras que se escondem
nos velhos baús que se deixam ficar pelos cantos da casa

E na gruta entreaberta de seus olhos fundos
pungia a dor numa espécie de ferocidade
que em fogo, obscuridade e lamento
cumpria o longo desígnio de correr nas águas do rio

E minhas tardes de sol e tédio e remorso
ficaram grudadas no muro absurdo
do velho e do tempo que dele já era

IV

Mas a chuva em si parou estarrecida
E o antecipadamente doirou
os cabelos na fronte da menina ainda virgem
que era a imagem do céu da minha boca aberta
devorando a podre carne magra do velho homem

Mas o que então esperava eu?!
Se além é claro e os olhos são aquém
No riso vidro areia clara
Gente
Pente bordado pendente
Claro há que não se vê?

Só quem
ignora
detém o saber!!

E por não saber, ama
inabalavelmente
o velho
a fome
a virgem
que fazem do ser apenas um instante de possibilidade

ainda há uma pedra no chão

um clique

  um fio de começo
fagulha

cuidado:
as realidades são poucas
e os sonhos
são muitos
Márcio Barreto
Enviado por Márcio Barreto em 23/08/2006
Código do texto: T223551
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Sobre o autor
Márcio Barreto
São Vicente - São Paulo - Brasil, 46 anos
40 textos (1956 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 02:19)
Márcio Barreto